Picanço-barreteiro (Lanius senator) - a ave migrante empaladora - Mário Silva

  


Picanço-barreteiro (Lanius senator)

a ave migrante empaladora


Mário Silva



O Pequeno Carrasco de Barrete Ruivo

A viagem fora longa e extenuante.

Desde as savanas quentes da África subsaariana, cruzando o vasto deserto e o traiçoeiro Estreito de Gibraltar, o instinto guiara-o de volta às terras quentes do interior de Portugal.

Ele era um Picanço-barreteiro (Lanius senator), um viajante incansável de asas curtas, mas de uma determinação férrea.

.

Como perfeitamente imortalizado na fotografia, o pequeno pássaro repousava agora no topo de um arbusto verdejante, banhado pela luz dourada e difusa de um final de tarde transmontano.

A sua postura era de absoluta realeza.

.

A Máscara do Caçador

Qualquer observador incauto que olhasse para o seu peito branco e macio, ou para o seu elegante dorso castanho e negro, poderia confundi-lo com um inofensivo pássaro canoro.

Mas a sua verdadeira natureza estava estampada no rosto.

Sobre os olhos escuros e perspicazes, exibia uma indomável "máscara" negra, encimada por um vistoso barrete cor de tijolo que lhe conferia um ar simultaneamente distinto e ameaçador.

.

No entanto, a sua verdadeira arma era o bico.

Forte e ostentando uma pequena curva em forma de gancho na ponta — digna de uma águia em miniatura —, aquele bico não fora feito para debicar sementes, mas sim para rasgar.

.

A Despensa de Espinhos

O picanço, a quem os locais muitas vezes chamam de "carniceiro", estava com fome, mas também pensava no futuro.

A época de acasalamento exigia energia e, acima de tudo, exigia impressionar uma futura parceira com a sua capacidade de providenciar sustento.

.

Do seu poleiro privilegiado, a sua visão aguçada varreu o matagal.

O silêncio do campo foi apenas quebrado pelo zumbido pesado de um grande escaravelho que aterrava num ramo seco lá em baixo.

Num ápice, a ave de barrete ruivo deixou-se cair.

O voo foi silencioso, rápido e letal.

Não houve sequer tempo para o inseto tentar a fuga; o bico adunco do picanço prendeu-o com a precisão de uma tenaz.

.

Mas o instinto do ”Lanius senator” é peculiar.

Em vez de devorar a sua presa de imediato, voou com ela até um espinheiro próximo.

Com movimentos rápidos e calculados, empalou o escaravelho num dos longos e afiados espinhos do arbusto.

.

O Senhor do Matagal

Aquele espinho não era apenas um prato; era um cabide macabro, a sua despensa ao ar livre.

Ali, o picanço-barreteiro guardava insetos, pequenos lagartos e até pequenos roedores para os dias em que a caça escasseasse ou para exibir como troféus.

.

Satisfeito com o seu trabalho, o pequeno e impiedoso caçador regressou ao seu ramo verde, o mesmo onde Mário Silva o captou em todo o seu esplendor.

Alheio à crueldade da sua sobrevivência, o picanço-barreteiro limitou-se a estufar o peito contra o vento morno, fundindo-se com a paleta dourada do campo, o indiscutível e belo senhor do seu pequeno reino de espinhos.

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

Tremoceiro bravo (Lupinus luteus) vs. giesta amarela (Cytisus striatus) - Águas Frias – Chaves – Portugal - Mário Silva

 


Tremoceiro bravo (Lupinus luteus) vs.

giesta amarela (Cytisus striatus)


Águas Frias – Chaves – Portugal

Mário Silva




A Batalha de Ouro em Águas Frias

Na pacata aldeia de Águas Frias, no coração das terras de Chaves, a chegada do final da primavera não se anuncia apenas no calendário; ela declara-se através de um duelo silencioso e deslumbrante.

É a época da "batalha do ouro", um espetáculo botânico onde duas das mais orgulhosas espécies da flora transmontana disputam a coroa da luz.

.

Na fotografia de Mário Silva, captada com a precisão de quem conhece os segredos da “sua terra”, assistimos ao momento alto deste embate natural: o Tremoceiro bravo (Lupinus luteus) contra a Giesta amarela (Cytisus striatus).

.

As Fileiras do Tremoceiro Bravo

Em primeiro plano, como um exército meticulosamente alinhado, erguem-se os tremoceiros bravos.

As suas flores ascendem em espigas firmes e verticais, assemelhando-se a dezenas de pequenas tochas douradas espetadas na terra.

Sustentados pelas suas folhas verdes e recortadas em forma de estrela, parecem soldados de infantaria orgulhosos, reclamando o solo centímetro a centímetro.

A sua beleza reside nesta repetição rítmica e disciplinada, uma maré baixa de amarelo intenso que inunda os campos e alimenta a terra.

.

A Majestade da Giesta Amarela

Mais ao fundo, ocupando as posições elevadas do terreno, a giesta amarela responde ao desafio.

Ao contrário da disciplina do tremoceiro, a giesta é a pura expressão da natureza indomável.

Os seus arbustos densos e volumosos explodem num fogo de artifício de pequenas flores esvoaçantes, criando nuvens densas de cor que pendem dos ramos como se o próprio sol ali tivesse derramado a sua tinta.

É uma presença altiva e dramática, sombreando ligeiramente o cenário para fazer o seu próprio amarelo brilhar ainda com mais força.

.

O Veredicto do Sol

A estória que se desenrola neste pedaço de chão transmontano não tem vencedores nem vencidos.

O vento, que sopra frio das montanhas vizinhas, serve de árbitro, agitando ora as espigas do tremoceiro, ora os ramos pesados da giesta, espalhando pelo ar um perfume doce e agreste que atrai as abelhas — as verdadeiras e únicas juízas deste confronto.

.

No canto inferior direito, a marca circular e dourada "MS" assina o quadro, selando o instante.

Afinal, a verdadeira magia da fotografia não reside na rivalidade, mas na harmonia feroz do contraste.

A verticalidade estruturada do tremoceiro aliada à exuberância caótica da giesta transforma Águas Frias num autêntico mar de ouro, provando que, em terras transmontanas, a primavera não é apenas uma estação do ano; é uma explosão de vida e luz que recusa passar despercebida.

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.


São 09h 24min ... cheguei ... eu sou o verão - O Despertar do Fogo: A Coroação da Luz

 


 

São 09h 24min ... cheguei ... eu sou o verão


O Despertar do Fogo: A Coroação da Luz


Mário Silva



 

O relógio cósmico não falha.

A madrugada despedia-se com uma brisa ainda tímida, um último suspiro da primavera que hesitava em ceder o seu lugar.

Nos campos abertos, a natureza parecia suster a respiração.

O céu ostentava já um azul profundo e imaculado, despido de qualquer nuvem, preparando o palco para o maior espetáculo astronómico do ano.

Não era uma manhã qualquer; era o dia do solstício.

.

Os segundos contavam-se no gotejar do orvalho.

As árvores mais distantes, escuras e silenciosas no fundo da paisagem, aguardavam na penumbra.

No primeiro plano, um imponente arbusto de giestas, carregado com milhares de pequenas flores fechadas, servia de sentinela à espera do sinal.

.

O Instante Exato

E então, o universo cumpriu a sua promessa.

Exatamente às 09h 24min, o horizonte rasgou-se.

O sol não se limitou a nascer; ele arrombou as portas da manhã com a força de uma explosão cósmica.

O astro-rei posicionou-se cirurgicamente por detrás do denso matagal de giestas, disparando os seus raios incisivos por entre a folhagem e as flores.

.

O impacto foi fulminante.

Num piscar de olhos, o frio matinal foi vaporizado.

A luz intensa atravessou os ramos, criando uma magnífica auréola ótica, um anel de refração luminoso que coroava a planta como se fosse sagrada.

As flores da giesta, banhadas por esta injeção letal de energia, explodiram num amarelo vibrante e dourado, cintilando contra o firmamento.

.

"Eu Sou o Verão"

.

Foi nesse exato momento, enquanto a luz engolia as sombras e a marca dourada do fotógrafo "MS" testemunhava o instante no canto inferior esquerdo, que uma presença invisível e avassaladora tomou conta dos campos.

Parecia ouvir-se uma voz ancestral, carregada pela aragem quente que subitamente começou a agitar os ramos floridos:

.

"São 09h 24min... cheguei... eu sou o verão."

.

A proclamação não pedia licença.

A estação do fogo reclamou o seu trono de imediato.

A paleta de cores do mundo saturou-se, o canto dos primeiros insetos rompeu o silêncio, e a terra preparou-se para os dias infindáveis.

Ali, no esplendor daquele arbusto incandescente, o verão declarava vitória, prometendo dias de calor implacável, paixões febris e a glória indomável da luz absoluta.

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

O Retalho de um Tempo Esquecido (estória) - Mário Silva

 



O Retalho de um Tempo Esquecido

 (estória)


Mário Silva




Do cimo da encosta, o velho Toino apoiava as mãos calosas no cajado de freixo, deixando o olhar perder-se sobre o vale verdejante que o vira nascer.

Aquela era a sua terra, uma pacata aldeia transmontana aninhada entre socalcos, lameiros e um arvoredo denso que respirava a frescura da montanha.

No entanto, cada vez que contemplava o casario lá em baixo, sentia um aperto no peito, como se estivesse a folhear um álbum de fotografias onde metade das páginas tivessem sido rasgadas e substituídas por recortes de revistas modernas.

.

Na sua juventude, a aldeia era um corpo único.

As casas, erguidas com a pedra suada arrancada àquelas mesmas encostas, vestiam-se de telhas escuras, rústicas e gastas pelos invernos rigorosos.

Eram habitações que se fundiam com a terra, camufladas na paisagem como se tivessem brotado do próprio solo.

.

Mas o tempo, esse escultor implacável, trouxe consigo os ventos da mudança.

Os filhos da terra partiram para França, para a Suíça ou para o Luxemburgo, fugindo da fome e da aspereza do campo.

Quando regressaram, nos meses de agosto, trouxeram nos bolsos os francos e a vontade férrea de mostrar que tinham vencido na vida.

E foi assim, casa a casa, que a aldeia começou a perder a sua identidade.

.

Toino observava a manta de retalhos arquitetónica que se estendia a seus pés.

Lado a lado com os telhados escurecidos e aluídos pelo peso dos anos, erguiam-se agora telhados de um cor-de-laranja garrido e industrial.

As paredes rústicas de pedra nua partilhavam agora os becos com fachadas rebocadas e pintadas de branco imaculado, ou anexos caixote de tijolo moderno.

Lá ao fundo, rasgando a harmonia dos campos agrícolas, destacava-se até um longo pavilhão de chapa vermelha, impensável há umas décadas.

.

Ele não os recriminava.

Sabia bem que as casas velhas eram geladas no inverno e que a tijoleira e o alumínio traziam um conforto que a sua geração nunca conhecera.

Mas, ao modernizarem os seus lares, apagaram a caligrafia dos antepassados.

A aldeia deixara de ser transmontana na sua essência visual para se tornar num subúrbio descontextualizado, plantado no meio da serra.

.

O sino da pequena igreja branca, erguida à direita do povoado, tocou as badaladas do meio-dia.

O som ecoou pelo vale, puro e inalterado, exatamente igual ao que Toino ouvia quando era menino.

Suspirou, ajeitando a boina na cabeça.

A identidade da sua aldeia podia estar a esvair-se no cimento e na tinta fresca, mas enquanto aquele sino tocasse e a terra continuasse a dar fruto, uma réstia da velha alma transmontana continuaria ali, teimosa, a resistir à passagem do tempo.

.

Estória & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

Um Dia da Águia de Asa Redonda: A Senhora dos Ventos (estória) - Mário Silva

 


Um Dia da Águia de Asa Redonda: 

A Senhora dos Ventos (estória)


Mário Silva



O vento matinal soprava cortante sobre as escarpas graníticas de Trás-os-Montes, varrendo a neblina que ainda adormecia nos fundos dos vales.

No cimo de um carvalho centenário, a sentinela preparava-se para o seu reinado diário.

Era uma águia-de-asa-redonda (Buteo buteo), uma predadora majestosa cuja vida era ditada pelo ritmo das correntes térmicas.

.

Com um impulso muscular poderoso, a ave abandonou o seu poiso e atirou-se para o abismo, entregando-se ao abraço invisível do ar.

A imagem capta precisamente o clímax dessa ascensão: a águia planando soberana contra a vastidão de um céu de um azul profundo e sem nuvens.

.

A Patrulha nas Alturas

Lá do alto, o mundo reduzia-se a um tapete vivo de urze, lameiros e socalcos.

A águia não precisava de bater as asas; o seu voo era um bailado perfeito de geometria e instinto.

Observada a partir do solo, a sua silhueta exibia a envergadura imponente que lhe dá o nome, com as asas largas e ligeiramente arredondadas bem esticadas, revelando os belos padrões de plumagem castanha e branca no ventre e sob as penas de voo.

A cauda, curta e em forma de leque, servia de leme exímio enquanto rasgava o firmamento.

.

Tudo parecia pacífico na imensidão azul, mas os olhos dourados da águia, verdadeiros radares biológicos, varriam a terra com uma acuidade letal.

.

O Mergulho

De súbito, a trezentos metros de altitude, algo quebrou a rotina da paisagem.

Um pequeno movimento errático por entre a vegetação rasteira.

Um rato do campo que, enganado pelo silêncio, se aventurara fora da sua toca.

.

Num milésimo de segundo, a pacata planadora transformou-se num projétil de carne e osso.

A águia dobrou as asas, colando-as ao corpo, e iniciou uma picada vertiginosa.

O vento sibilava furiosamente pelas suas penas enquanto a velocidade aumentava de forma aterradora.

Era a morte que descia dos céus, silenciosa, focada e inevitável.

.

A meros metros do solo, quando o impacto parecia fatal, a ave abriu de rompante a sua grande envergadura de asas, travando a queda com um estrondo abafado de penas contra o vento.

As garras, até ali encolhidas, projetaram-se para a frente como punhais afiados, agarrando a presa com uma precisão cirúrgica.

.

Com um grito estridente de vitória que ecoou pelas fragas transmontanas, a águia bateu as asas com força dobrada e voltou a erguer-se.

O dia estava apenas a começar, e sob aquele céu impecavelmente azul, a ”Buteo búteo” provava mais uma vez por que razão é a eterna guardiã dos céus selvagens do Norte.

.

Estória & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

O Guardião do Tempo: O Segredo do Puxador de Ferro (estória) - Mário Silva



 

O Guardião do Tempo: 

O Segredo do Puxador de Ferro (estória)


Mário Silva



Nas ruelas labirínticas de uma aldeia perdida nas profundezas de Trás-os-Montes, existia uma habitação que os habitantes evitavam mencionar após o cair do sol.

No centro daquela porta de madeira seca, grelhada pelos verões e castigada pelos invernos, residia o que os locais chamavam, em sussurros, de “O puxador encantatório”.

.

Dizia a lenda que aquele não era um simples objeto de metal.

A sua forma ornamentada, um entrelaçado de curvas que parecia desafiar a lógica da geometria, estava agora devorada por uma ferrugem ancestral e velada por uma densa rede de teias de aranha, que se estendiam como fios de seda de um tempo esquecido.

A chapa da fechadura, fixa à madeira por pregos rudimentares e oxidados, exibia um buraco de chave negro, como um olho atento que vigiava o destino de quem ousava aproximar-se.

.

Hermenegildo, um jovem aventureiro movido pela curiosidade, parou diante daquela entrada secular.

O silêncio da aldeia era absoluto, apenas interrompido pelo vento que uivava por entre as pedras de granito.

Ele estendeu a mão, sentindo a adrenalina percorrer-lhe o corpo.

Sabia o aviso dos antigos: "Quem agarrar o ferro sem fé, fica preso à história que ele esconde".

.

Ao aproximar os dedos daquela peça de metal trabalhada, as teias de aranha pareceram vibrar, reagindo à sua presença como se fossem extensões de um ser vivo.

O toque foi gélido, uma descarga de eletricidade estática que parecia emanar do coração da própria montanha.

Num gesto impetuoso, Hermenegildo fechou a mão sobre o puxador.

.

Nesse instante, o mundo em redor pareceu dissolver-se.

Não ouviu o ranger das dobradiças, mas sim um coro de sussurros que brotavam da madeira gasta e rugosa.

Imagens de contrabandistas cruzando a fronteira, de mulheres rezando ao redor da lareira e de segredos enterrados sob o granito invadiram a sua mente.

O puxador não era apenas uma ferramenta para abrir uma porta; era um selo místico, um elo entre o presente e as memórias indomáveis da raça transmontana.

.

Hermenegildo não abriu a porta.

Percebeu que o verdadeiro encantamento era a própria espera, a preservação do mistério sob aquela crosta de ferro e teias.

Afastou-se, mas levava consigo algo que ninguém mais tinha: a certeza de que, naquela aldeia, até um simples pedaço de metal ferrugento era um portal para o infinito.

.

E você, teria coragem de rodar este puxador?

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

O Caçador de Raios de Ouro (estória) – Mário Silva

 


O Caçador de Raios de Ouro (estória)


Mário Silva




Diziam os antigos na aldeia que a velha habitação do Ti’ Bento não fora construída por pedreiros, mas sim por um girassol teimoso que decidira transformar-se em pedra e cal.

Numa terra onde o inverno morde com nove meses de frio cortante e o verão queima com três de inferno, a disposição de uma habitação determinava a sobrevivência do corpo e o aconchego da alma.

E aquela era, por direito e sabedoria popular, "A casa virada pr'ó sol".

 

A Dualidade do Tempo

Quem caminhava pela ruela estreita e empedrada ao final da tarde assistia a um espetáculo de luz singular.

A propriedade dividia-se em duas eras, quase como se o passado e o presente partilhassem o mesmo teto:

A Ala da Sombra e do Resguardo: À direita, protegida por um muro de pedra rústica coberto de hera e por uma árvore frondosa, erguia-se a parte mais antiga.

Com uma fachada escura de ripas de madeira envelhecida e portadas cinzentas que pareciam fechar-se sobre segredos de outrora, esta secção mantinha-se fresca, guardando no seu piso térreo as pipas de vinho e as salgadeiras do bicho.

A Fachada da Luz: Mas era à esquerda que o milagre transmontano acontecia.

Uma longa parede branca, erguida sobre uma sólida base de cantaria, estendia-se como uma tela desenhada para absorver a réstia final do dia.

Alinhadas milimetricamente, as suas janelas e a pequena varanda de ferro com portadas verdes pareciam olhos abertos, atentos, bebendo sofregamente o calor do crepúsculo.

.

O Legado de Bento

O Ti’ Bento herdara a casa numa altura em que a aldeia começava a esvaziar-se.

Os jovens partiam para as capitais ou para o estrangeiro, mas ele recusava-se a deixar o vale.

Nas tardes de outono, quando o vento gélido da serra começava a fustigar as copas das árvores, Bento abria a porta da varanda verde e sentava-se no parapeito.

.

Enquanto a ruela mergulhava na penumbra cinzenta das sombras projetadas pelo muro, a sua fachada brilhava com um tom dourado, quase incandescente.

O sol, antes de se esconder por detrás das montanhas, concentrava ali toda a sua energia, aquecendo as pedras de granito que, mais tarde, devolveriam esse calor ao interior da casa durante a noite escura.

.

"A nossa casa," dizia Bento à sua neta, "tem de saber prender a luz. Quem tem o sol virado para si, nunca fica completamente na solidão."

.

Hoje, o Ti' Bento já não se senta na varanda, mas a lição da arquitetura popular transmontana permanece intacta na fotografia de Mário Silva.

Ali, na curva daquela estrada deserta, a casa continua orgulhosamente de pé, desafiando as sombras do tempo e aquecendo o olhar de quem passa com o abraço luminoso do eterno sol de Trás-os-Montes.

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

"O sol esconde-se atrás da serra do Larouco" - Mário Silva

 


"O sol esconde-se atrás 

da serra do Larouco"

Mário Silva



A fotografia capta um majestoso pôr do sol, dominado por uma paleta de tons intensamente quentes, onde o laranja incandescente inunda quase toda a abóbada celeste.

No horizonte, recortam-se as silhuetas escuras e ondulantes da serra do Larouco, que mergulham em profunda sombra perante a contraluz.

O sol apresenta-se como um semicírculo de luz fulgurante, prestes a desaparecer por detrás do ponto mais alto do relevo montanhoso, irradiando um brilho amarelo intenso a partir do cume.

Acima, uma faixa de nuvens escuras atravessa horizontalmente a composição, criando um forte contraste dramático com a claridade circundante.

No canto inferior direito, vislumbra-se a marca de água circular e dourada com o monograma "MS".

.

O Adeus Dourado no Colo da Montanha

Há, na agonia do dia, uma beleza melancólica que nos silencia a alma e nos obriga a olhar para dentro.

Quando a tarde se rende ao peso das horas e o céu se incendeia num pranto alaranjado, é como se o universo inteiro suspendesse a respiração para assistir ao derradeiro suspiro da luz.

Na magistral captação de Mário Silva, o sol não apenas se põe no horizonte; ele refugia-se, quase maternalmente acolhido, no regaço de pedra, urze e sombras da imponente serra do Larouco.

.

As montanhas transmontanas, despidas de detalhe e vestidas com o manto escuro do crepúsculo, erguem-se como guardiãs de um segredo ancestral.

São silhuetas adormecidas, testemunhas caladas da eternidade, que abraçam o astro-rei no seu momento de maior fragilidade e beleza.

O firmamento sangra numa paleta de fogo vivo, uma ferida de luz que recusa fechar-se sem antes deixar na terra a marca inflamada da sua passagem fugaz.

Ele foge-nos da vista, ocultando-se vagarosamente por detrás daquele cume agreste, mas não sem antes dourar as arestas frias do mundo com um último, ardente e apaixonado beijo de despedida.

.

Neste cenário de assombro, onde o efémero e o eterno se cruzam, a faixa espessa de nuvens que rasga o céu assemelha-se a um véu de luto antecipado.

É a noite que reclama o seu império.

E nós, meros e minúsculos observadores diante de tamanha imensidão, ficamos ali, paralisados pela vastidão de cores.

Sentimos, subitamente, a saudade inexplicável de um dia que ainda agora terminou, uma nostalgia doce que nos recorda quão frágil é a claridade das nossas próprias vidas.

O Larouco embala o sol até o adormecer e, com ele, recolhe também um pedaço do nosso suspirar, guardando-o no escuro até que a alvorada decida, por pura compaixão, resgatar o mundo das sombras mais uma vez.

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

"A importância do armazém transmontano" - Águas Frias, Chaves, Portugal - Mário Silva

 


"A importância do armazém transmontano"

Águas Frias, Chaves, Portugal

Mário Silva


A fotografia do arquivo de Mário Silva capta, num plano picado, uma pequena e robusta edificação agrícola de caráter tradicional inserida na paisagem rural de Águas Frias.

.

A Estrutura Central: Trata-se de um armazém de planta quadrangular construído com blocos de granito claro e bem aparelhados.

A estrutura é encimada por um telhado de quatro águas em telha cerâmica de um tom alaranjado e vivo, envelhecido pelo tempo.

Na parede lateral direita, vislumbra-se a abertura de uma porta rústica de madeira.

A Envolvente Agrícola: O armazém encontra-se implantado no limite de terrenos cultivados.

Em primeiro plano, o solo de terra batida exibe pequenas plantas em crescimento alinhadas em sulcos.

A rodear o edifício, destacam-se árvores de fruto e arbustos de folhagem verde e densa, incluindo uma figueira à direita e uma pequena laranjeira junto à parede de pedra.

O Horizonte: Ao fundo, vislumbra-se a vastidão da paisagem transmontana, com encostas verdejantes e vales que se estendem sob um céu esbranquiçado e nublado, característico de um dia cinzento.

Assinatura: No canto inferior direito, destaca-se o logótipo circular estilizado em tom esverdeado com as iniciais "MS" do fotógrafo.

.

O Cofre do Suor e da Terra

Diziam os antigos em Águas Frias que a alma de um homem da terra não se guardava no baú do quarto, nem nos bolsos das calças de cotim.

Guardava-se ali, naquelas quatro paredes de granito maciço que desafiavam os invernos rigorosos e os verões de brasa.

Para o velho Ti Arnaldo, aquele pequeno armazém transmontano não era um depósito de tralhas; era o coração pulsante de toda a sua existência.

.

Visto do cimo do monte, sob o céu pálido que ameaçava chuva mansa, o telhado alaranjado parecia uma coroa rústica deitada sobre a rocha.

Quantas vezes, ao fim da tarde, o Ti Arnaldo se sentara à sombra daquela figueira generosa, limpando o suor da testa com as costas da mão, fitando a sua obra?

.

Atrás daquela porta de madeira, cujo fecho cantava sempre a mesma melodia guinchona, morava a verdadeira riqueza de Trás-os-Montes.

Não havia ouro nem pratas.

Havia o aroma morno e telúrico das batatas acabadas de arrancar, repousando na penumbra protetora; havia as sacas de castanhas apanhadas nos soutos vizinhos, o restolho dourado para os animais e as ferramentas de ferro pesado que tantas vezes lhe tinham calejado as mãos.

O armazém era o cofre-forte que garantia o pão de cada dia, o guardião dos segredos da terra trabalhada palmo a palmo.

.

Lá fora, os pequenos rebentos rompiam timidamente do solo acastanhado, alinhados em sulcos perfeitos, bebendo a humidade do ar.

Sabiam, na sua sabedoria vegetal, que o seu destino final seria o resguardo daquelas pedras amigas.

.

O progresso trouxe máquinas grandes e barracões de chapa cinzenta, mas nenhum deles tinha a dignidade daquele granito que parecia ter nascido do próprio chão.

O armazém transmontano permanecia ali, altivo e silencioso, como um monumento ao esforço sem nome de gerações.

Era a certeza de que, enquanto aquela estrutura estivesse de pé, guardando o fruto do suor dos homens, a identidade daquela aldeia nunca haveria de morrer.

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.


"Dia Mundial do Dador de Sangue" - Mário Silva (IA)

 


"Dia Mundial do Dador de Sangue"

Mário Silva (IA)





A fotografia retrata um ambiente clínico moderno e luminoso, focado no momento de uma dádiva de sangue.

Do lado esquerdo, um jovem dador repousa de forma descontraída numa marquesa branca, exibindo um sorriso largo enquanto estende o braço direito, segurando uma pequena bola vermelha na mão para auxiliar o fluxo sanguíneo.

Do lado direito, uma profissional de saúde (enfermeira), vestida com uma farda azul, luvas brancas e um estetoscópio, ajusta os equipamentos no braço do dador, retribuindo o sorriso de forma afável e empática.

.

Um garrote azul envolve o braço do jovem, e um tubo conduz à bolsa de recolha de sangue suspensa à direita.

No plano de fundo, fixada na parede branca, destaca-se uma placa vermelha em forma de gota com a inscrição "Dia Mundial do Dador Sangue".

No canto inferior direito da imagem, encontra-se o logótipo circular dourado e preto com as iniciais "MS" do autor.

.

Uma Breve Picadela, Uma Esperança Renovada

A fotografia de Mário Silva capta, com uma sensibilidade notável, a essência do que significa ser dador de sangue.

Longe do nervosismo ou da apreensão que tantas vezes afastam potenciais voluntários, a imagem reflete uma tranquilidade desarmante.

Os sorrisos partilhados entre o dador e a enfermeira são o testemunho visual de que este é, acima de tudo, um ato de profunda alegria, solidariedade e amor ao próximo.

.

O Mito da Agulha e a Realidade da Dádiva

Muitas vezes, a hesitação em doar sangue prende-se com o receio do desconhecido ou o medo das agulhas.

No entanto, a expressão relaxada do jovem retratado é a prova provada de que o processo é simples, indolor e rodeado de todos os cuidados médicos.

Aquela "breve picadela" inicial, que dura apenas uma fração de segundo, é um preço ínfimo a pagar pelo impacto gigantesco que se segue.

A pequena bola vermelha que o dador aperta na mão serve para estimular a circulação, mas funciona também como uma metáfora perfeita: o bater de um coração saudável a trabalhar para manter outro coração a bater.

.

O Sangue: A Vida Que Não Se Fabrica

Numa era marcada por avanços científicos e tecnológicos sem precedentes, o sangue continua a ser um bem precioso e impossível de reproduzir em laboratório.

Depende, pura e exclusivamente, da generosidade de cidadãos saudáveis.

Aquela bolsa que vemos a encher-se ao lado da marquesa representa muito mais do que um fluído biológico; representa tempo.

.

Com uma única dádiva (cerca de 450 ml), é possível salvar até três vidas.

O sangue recolhido é essencial em cirurgias de grande complexidade, tratamentos oncológicos, complicações no parto, anemias crónicas e respostas a acidentes graves.

.

Celebrar Para Agir

A placa evocativa do "Dia Mundial do Dador de Sangue" visível na parede do consultório serve como um lembrete crucial.

Esta data não existe apenas para agradecer e homenagear aqueles que regularmente estendem o braço e oferecem um pouco de si.

Existe, sobretudo, para consciencializar quem nunca o fez, desafiando a sociedade a garantir que as reservas dos hospitais nunca atinjam níveis críticos.

.

Doar sangue é partilhar a própria vida.

E, tal como a imagem nos demonstra de forma tão humana, fazê-lo com um sorriso no rosto transforma uma simples picadela no maior ato de heroísmo quotidiano.

Que esta fotografia sirva de inspiração para que mais braços se estendam e mais vidas sejam salvas.

.

Texto & Fotografia (IA): ©MárioSilva

.

.

"Santo António de Lisboa (ou de Pádua)" - Mário Silva (IA)

 


"Santo António de Lisboa (ou de Pádua)"

Mário Silva (IA)




A imagem apresenta uma representação fotorrealista e cinematográfica de Santo António a segurar o Menino Jesus ao colo.

O santo é retratado como um jovem frade, exibindo a tradicional tonsura e vestindo um hábito franciscano de lã castanha escura, cingido à cintura por uma corda com nós.

Na sua mão direita, segura um lírio branco, símbolo de pureza.

O Menino Jesus, de cabelos encaracolados e vestido com uma túnica de tom cru, sorri de forma terna e radiante enquanto fita o rosto sereno do frade.

.

O cenário de fundo revela o interior desfocado de uma imponente igreja de pedra, com colunas e arcos clássicos, banhada por feixes de luz celestial que incidem diagonalmente sobre as duas figuras, conferindo um tom divinal e dramático à cena.

No canto inferior direito, destaca-se o logótipo circular dourado com o monograma "MS" do autor.

.

Santo António: De Lisboa ou de Pádua? 

Uma Disputa de Devoção

A bela e comovente fotografia de Mário Silva, sob o título "Santo António de Lisboa", capta a essência daquele que é, indiscutivelmente, um dos santos mais populares e venerados de toda a cristandade.

Contudo, o título escolhido pelo autor remete-nos diretamente para uma das mais antigas e amigáveis disputas geográficas e religiosas da Europa: afinal, o santo pertence a Lisboa ou a Pádua?

.

A resposta a esta questão depende essencialmente de quem a profere e reflete a dualidade da vida de um homem que nasceu num extremo da Europa e faleceu no outro.

.

As Raízes Alfacinhas: Fernando de Bulhões

Para os portugueses, não há margem para dúvidas: ele é Santo António de Lisboa.

Nascido na capital portuguesa por volta de 1195, a poucos passos da Sé Catedral, o seu nome de batismo era Fernando de Bulhões.

Foi em terras lusitanas que cresceu, recebeu a sua educação inicial e ingressou na ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho, vivendo em Lisboa e, mais tarde, em Coimbra, onde aprofundou os seus vastos conhecimentos teológicos.

O vínculo a Portugal é, portanto, o da sua génese, do seu sangue e da sua formação intelectual e espiritual.

.

O Apelo Franciscano e a Adoção Italiana

A viragem na sua vida ocorreu quando os restos mortais dos primeiros mártires franciscanos chegaram a Coimbra vindos de Marrocos.

Profundamente tocado, Fernando decide mudar o seu rumo: junta-se à recém-criada Ordem dos Franciscanos, assumindo o nome de António e envergando o hábito castanho com que é tradicionalmente retratado, como ilustra a obra de Mário Silva.

.

Partiu para Marrocos com o intuito de missionar, mas uma doença fê-lo regressar.

Uma tempestade, no entanto, desviou o seu navio para as costas de Itália.

A partir desse momento, a sua vida cruzou-se irremediavelmente com a península itálica.

António conheceu São Francisco de Assis e revelou-se um pregador de talento ímpar, multidões acorriam para o ouvir em Itália e em França.

.

Pádua: O Repouso Final

Foi na cidade italiana de Pádua que António passou os seus últimos anos, desenvolvendo um intenso trabalho de pregação e assistência aos mais pobres.

E foi ali, às portas de Pádua, que viria a falecer no dia 13 de junho de 1231, com apenas 36 anos.

A comoção na cidade foi de tal ordem que a sua canonização pelo Papa Gregório IX ocorreu num tempo recorde de menos de um ano.

Assim, para os italianos e para o resto do mundo católico, o taumaturgo ficou imortalizado como Santo António de Pádua.

.

Um Santo Cidadão do Mundo

A disputa pelo "sobrenome" do santo reflete apenas o amor profundo que ambas as cidades lhe nutrem.

Lisboa reclama-o como filho, o menino que ali viu a luz do dia e se formou; Pádua reclama-o como pai espiritual, o homem que ali encontrou o seu destino final e onde repousam as suas relíquias.

.

Independentemente do epíteto geográfico, a imagem poética de Mário Silva recorda-nos a verdadeira identidade do santo.

Mais do que de Lisboa ou de Pádua, Santo António é o homem do lírio da pureza e do abraço ao Menino Jesus.

É um cidadão do mundo cuja mensagem de humildade, caridade e conhecimento continua a ecoar universalmente, unindo devotos de todas as latitudes.

.

Texto & Fotografia digital (IA): ©MárioSilva

.

.


"Pintarroxo-comum (Linaria cannabina), curioso e pensativo" - Trás-os-Montes, Portugal - Mário Silva

 



"Pintarroxo-comum (Linaria cannabina), curioso e pensativo"

Trás-os-Montes, Portugal

Mário Silva



A fotografia capta, em grande plano e com uma nitidez impressionante, a beleza delicada de uma ave passeriforme em ambiente natural.

.

O Protagonista: Trata-se de um pintarroxo-comum (Linaria cannabina) macho, caracterizado pela plumagem cinzenta na cabeça com uma pequena mancha carmesim na testa, dorso castanho-escuro e o peito salpicado por um tom vermelho-vivo e vibrante.

A ave encontra-se voltada de perfil para a direita, exibindo um olhar atento e o bico curto e cónico ligeiramente inclinado.

O Pouso e o Fundo: O pintarroxo está empoleirado na aresta de uma rocha rústica, cuja superfície se apresenta densamente coberta por líquenes texturados em tons de castanho, ocre e esbranquiçado.

O plano de fundo exibe um efeito “bokeh” suave e completamente desfocado, numa paleta uniforme de verdes-oliva e tons terrosos que realça a figura da ave.

.

O Pensador do Penhasco

Dizem as gentes da terra alta que os pintarroxos trazem no peito uma gota do sangue do próprio outono, uma promessa de calor gravada nas penas para aconchegar os dias em que o vento sopra mais frio nas fragas de Trás-os-Montes.

.

Naquela manhã de luz mansa, o mundo parecia ter emudecido.

No cimo de uma rocha antiga, vestida de líquenes que demoraram séculos a desenhar rendas cinzentas e douradas na pedra, pousou um pequeno milagre de asas.

Era ele: o pintarroxo, o pequeno guardião dos segredos do vento.

.

Ao contrário dos seus irmãos que saltitavam irrequietos pelos matos e giestas, este pequeno ser deteve-se.

Ficou estático na borda do abismo de pedra, com o peito rubro inflamado pela luz, como se guardasse um segredo demasiado grande para o seu tamanho.

Havia no seu olhar escuro e brilhante uma expressão que os homens raramente compreendem: uma curiosidade sem pressa, um silêncio pensativo que parecia interrogar a imensidão do vale.

.

"O que vês tu, pequeno filósofo?", perguntaria quem por ali passasse.

Talvez ele estivesse a contar as nuvens que se desfaziam na linha do horizonte, ou a ouvir o pulsar da seiva nas raízes escondidas debaixo do granito.

Talvez, na sua pequenez, ele compreendesse a fragilidade da vida melhor do que nós, medindo o tempo não por horas, mas pela aragem que lhe arrepiava as penas do peito carmesim.

.

O fundo esverdeado envolvia-o num abraço macio e abstrato, isolando-o do ruído do mundo, transformando aquele pedaço de rocha num altar de contemplação pura.

O pintarroxo não precisava de voar para ser livre; bastava-lhe aquele instante de quietude, aquela pausa sagrada onde a natureza parecia prender a respiração para não quebrar o fio dos seus pensamentos de passarinho.

E ali ficou, como uma estátua viva de cor e poesia, a provar que a maior beleza do mundo reside na simplicidade de quem sabe, apenas, parar e admirar o milagre de existir.

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

Picanço-barreteiro (Lanius senator) - a ave migrante empaladora - Mário Silva

   Picanço-barreteiro (Lanius senator) a ave migrante empaladora Mário Silva O Pequeno Carrasco de Barrete Ruivo A viagem fora longa e exten...