”Chamariz (Serinus serinus) - o cantor que não vai à Eurovisão” - Mário Silva

 


”Chamariz (Serinus serinus)

o cantor que não vai à Eurovisão”

Mário Silva


A imagem capta, em plano médio e contra-picado, um chamariz (Serinus serinus) empoleirado num ramo de carvalho num momento de puro virtuosismo musical.

A pequena ave, com a sua plumagem amarela vibrante listada a castanho e cinzento, surge de bico totalmente aberto, direcionada para o céu, sugerindo a intensidade do seu canto.

O ramo rústico que lhe serve de palco exibe folhas verdes recortadas e pequenas bolotas em crescimento.

Ao fundo, ergue-se um céu azul-turquesa salpicado por nuvens brancas e muito leves.

No canto inferior direito, encontra-se o selo digital com o monograma "MS" do autor.

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O Grande Palco de Ramos e Vento

No topo do velho carvalho, onde as bolotas ainda ensaiavam os seus primeiros casacos de outono, vivia o Chamariz mais afinado de Trás-os-Montes.

Chamavam-lhe Serino, um tenor de palmo e meio cuja única ambição era cantar mais alto do que o sussurro do vento norte.

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Naquela manhã de céu limpo, uma melra cosmopolita que costumava passar os invernos nas grandes cidades aterrou no ramo vizinho.

— Devias concorrer à Eurovisão, Serino! — sugeriu ela, ajeitando as penas pretas. — Tens lábia, tens um colete amarelo que salta à vista, e aquele teu trilo rápido faria furor nas televisões de toda a Europa.

Serino olhou para a melra, limpou o bico numa folha recortada de carvalho e soltou uma gargalhada curta.

— À Eurovisão? Para quê? Para ficar fechado num pavilhão cheio de luzes de néon, fumo artificial e humanos a gritar em línguas que eu não entendo?

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A melra tentou argumentar sobre a fama, os aplausos e os contratos em estúdios envidraçados, mas o pequeno chamariz limitou-se a abrir as asas, sentindo a brisa fresca da manhã fustigar-lhe o peito dourado.

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Para Serino, não havia melhor acústica do que a abóbada infinita daquele céu azul.

O seu júri eram as abelhas que passavam a zumbir, o seu cenário eram as nuvens brancas que mudavam de forma ao sabor da música, e os seus pontos eram dados pelo sol, que subia no horizonte a cada nota mais aguda.

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Sem mais demoras, Serino agarrou-se firmemente à casca rústica do seu poleiro de madeira, esticou o pescoço e abriu o bico de par em par.

Da sua garganta brotou um canto frenético, uma sinfonia de trinados cristalinos e agudos perfeitos que fez calar os arredores.

Era uma canção sem televoto, sem júri internacional e sem canais de televisão.

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A melra, rendida à pureza daquele momento, percebeu que o pequeno chamariz tinha razão.

Há artistas que nasceram para os palcos do mundo, e há outros, infinitamente mais livres, que preferem continuar a ser os reis absolutos da grande e eterna ópera da natureza.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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