"Rua Central sem vivalma,
...somente um cão"
Mário Silva
Esta é uma imagem que capta com sensibilidade a alma
profunda dum Portugal profundo.
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A fotografia de Mário Silva, intitulada "Rua Central
sem vivalma, somente um cão", transporta-nos para a aldeia de Águas Frias,
em Chaves.
A composição é dominada por uma estrada de asfalto clara que
serpenteia por entre muros de pedra e habitações típicas da região
transmontana.
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No centro do caminho, um cão preto caminha solitário,
afastando-se do observador, servindo como o único sinal de movimento e vida num
cenário de absoluta quietude.
À esquerda, árvores de ramos despidos de folhas sugerem o
rigor do inverno, enquanto ao fundo se ergue uma casa de tons cinzentos com o
característico telhado de telha cerâmica laranja.
O céu encoberto e a luz suave reforçam a atmosfera de
melancolia e isolamento que a obra emana.
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O Silêncio de Trás-os-Montes: Quando a Rua Deixa de
Ter Gente
O título escolhido por Mário Silva não é apenas uma
descrição visual; é um diagnóstico social.
Dizer que uma "Rua Central" não tem
"vivalma" encerra em si uma contradição dolorosa.
Por definição, a rua central de qualquer localidade deveria
ser o seu coração pulsante, o ponto de encontro, o lugar do comércio e do
"bom dia" trocado entre vizinhos.
Em Águas Frias, como em tantas outras aldeias de
Trás-os-Montes, esse pulsar está a tornar-se um eco.
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A Desertificação como Realidade Inexorável
A imagem é uma metáfora poderosa da desertificação do mundo
rural.
Ao longo das últimas décadas, o interior de Portugal tem
assistido a um êxodo contínuo.
Os jovens partem para as cidades do litoral ou para o
estrangeiro em busca de oportunidades, deixando para trás um património de
pedra e silêncio.
O que resta são casas fechadas e ruas onde o som dos passos
humanos foi substituído pelo sopro do vento nos ramos secos.
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O Cão: O Último Guardião
A presença do cão na fotografia é simbólica.
Nas aldeias fustigadas pelo despovoamento, os animais
tornam-se, muitas vezes, os últimos habitantes das ruas.
Este cão preto, caminhando sozinho, representa a lealdade a
um território que parece ter sido esquecido pelo progresso.
Ele é o testemunho vivo de que, embora a "vivalma"
humana escasseie, o espírito do lugar resiste, ainda que de forma solitária.
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Um Apelo à Memória
A fotografia de Mário Silva cumpre uma função vital: a de
documento histórico e emocional.
Ela obriga-nos a olhar para o que estamos a perder.
A desertificação não é apenas a falta de pessoas; é a perda
de tradições, de saberes ancestrais e da identidade transmontana que tanto
caracteriza o norte de Portugal.
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Águas Frias, vista através desta lente, é um lembrete
poético e triste de que o país corre a duas velocidades.
Enquanto o litoral ferve em atividade, o interior recolhe-se
na dignidade de quem, como o cão da imagem, continua a percorrer o seu caminho,
mesmo que já não haja ninguém à janela para o ver passar.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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