"Rã-verde (Pelophylax perezi) e o charco que quase
secou" (estória)
Mário Silva
A imagem capta, em plano de
detalhe, uma rã-verde (Pelophylax perezi) camuflada no seu habitat natural em
vias de desaparecer.
O anfíbio, de pele húmida com
padrões poligonais em tons de castanho, ocre e uma linha dorsal
verde-amarelada, encontra-se estático sobre uma densa camada de vegetação
aquática.
O meio circundante é composto por
pequenas folhas de lentilha-d'água e filamentos entrelaçados que exibem uma
tonalidade predominantemente amarelada e dourada, denunciando a escassez de
água e o efeito do calor sobre o charco.
No canto inferior direito,
vislumbra-se o logótipo circular com o monograma "MS" do autor.
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A Última Poça de Sol
O mundo de “Peló”, a rã-verde,
media-se outrora pela distância de um grande salto.
Havia dias em que o céu se
afogava inteiramente no charco e as suas águas profundas sabiam a lodo fresco e
a canções de acasalamento que ecoavam pelas noites fora.
Mas o verão daquele ano trouxera
um bafo pesado, um sol tirano que bebia o charco às colheradas, sem pedir
licença.
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Agora, o vasto império de água
reduzia-se àquele minúsculo tapete de lentilhas-d'água e musgo entretecido, que
o calor começava a pintar com as cores douradas e tristes do outono antecipado.
A água viva, que antes corria
livre e límpida, transformara-se numa humidade espessa, num abraço térmico que
sufocava a terra.
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“Peló” mantinha-se imóvel, com o
corpo achatado contra a pouca frescura que restava no fundo do leito.
A sua pele, uma obra-prima de
camuflagem desenhada com as próprias cores do lodo e das folhas secas,
confundia-se perfeitamente com o cenário.
Era uma estratégia de
sobrevivência, sim, mas também um ato de comunhão: a rã recusava-se a abandonar
a casa que a vira nascer, mesmo quando esta se desfazia em pó.
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Com os seus grandes olhos
dourados e atentos, “Peló” olhava o horizonte ao nível das plantas aquáticas.
Sentia a pele secar milímetro a
milímetro.
Sabia que, a pouca distância
dali, para lá da barreira de juncos ressequidos, a morte espreitava sob a forma
de terra estalada.
Cada vibração gular era uma
contagem decrescente; cada raio de sol que atravessava a folhagem era um aviso
de que o tempo estava a evaporar-se tão rápido como o líquido precioso.
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Contudo, na memória ancestral da
rã-verde, habitava a promessa das primeiras gotas de outono, o cheiro a terra
molhada que faz o chão reviver.
Até lá, “Peló” seria o coração
pulsante daquele charco moribundo, a última sentinela que, num silêncio
estático, esperava que os céus voltassem a ter misericórdia da sua pequena
pátria de lama.
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E, você, o que acha que aconteceu
à pequena rã verde “Peló”?
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Estória e Fotografia: ©MárioSilva
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