“Corre forte, fortemente,
como quem clama por mim,
não é lobo, nem javali,
é a água que passa ali"
Mário Silva
A imagem captura a força bruta e a pureza de uma linha de
água montanhosa em pleno movimento.
A composição foca-se no fluxo impetuoso que se despenha
sobre rochas cobertas de um musgo verde vibrante, criando uma textura de
"véu" na água, típica de uma exposição que privilegia o dinamismo.
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As margens são ladeadas por vegetação rasteira e ramos secos
que emolduram o canal, enquanto a luz intensa atravessa a folhagem ao fundo,
conferindo à cena uma aura quase etérea e selvagem.
A paleta de cores oscila entre os brancos gélidos da espuma,
os verdes profundos do musgo e os tons terra da envolvência, transmitindo uma
sensação de frescura e de natureza intocada.
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A Voz do Rio: Quando a Água se Torna Grito
O Título como Prenúncio
"Corre forte, fortemente, como quem clama por mim,
não é lobo, nem javali, é a água que passa ali."
Estas palavras de Mário Silva não são apenas uma legenda;
são uma chave de leitura.
Ao afastar a figura do lobo ou do javali, o autor retira o
perigo da "fera" para nos apresentar o perigo — ou a urgência — do
elemento.
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A Dança dos Sentidos
Na solidão da serra, o ouvido engana-nos.
O bater da água nas fragas assemelha-se ao arfar de uma
criatura, ao galope de um animal que cruza o mato.
Mas aqui, o movimento é contínuo, imparável.
A água não caça, mas reclama a nossa atenção com a mesma
intensidade de um predador.
Ela "clama", chama por quem a observa, exigindo
que reconheçamos a sua vida própria.
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A Poesia do Efémero
A fotografia imobiliza aquilo que nunca está parado.
É o paradoxo da imagem: vemos a força "fortemente"
expressa, mas sabemos que aquela água exata já não está lá.
O sentido poético que esta imagem escreve na nossa mente
fala sobre a passagem do tempo.
O Musgo: A paciência da pedra que aceita a humidade.
A Espuma: A fúria branca que nasce do obstáculo.
O Chamamento: A ligação ancestral entre o ser humano
e o curso dos rios.
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Mário Silva consegue, através da sua lente, transformar um
momento banal da natureza num diálogo íntimo.
Não é um bicho que corre; é o sangue da terra que pulsa,
vivo, livre e, acima de tudo, ruidoso na sua transparência.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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