"Represa de água para regadio"
Mairos, Chaves, Portugal
Mário Silva
A fotografia de arquivo capta uma
serena paisagem rural e hidráulica na aldeia transmontana de Mairos.
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O Plano Central: A
composição é dominada por uma grande represa ou espelho de água, cuja
superfície escura se apresenta levemente encrespada por pequenas ondas causadas
pela brisa.
O Primeiro Plano: Na
margem inferior direita, sobressai uma margem verdejante e viçosa repleta de
vegetação rasteira, onde se destacam delicadas e esguias flores silvestres
brancas (semelhantes a umbelíferas ou rendas-de-marajá) que se erguem em
direção à água.
O Plano de Fundo: A
represa é emoldurada por uma colina suave, densamente coberta por uma manta de
vegetação onde pontuam árvores de folhagem verde e extensas manchas amarelas,
típicas da floração de giestas ou carrascos, sob um céu claro e desanuviado.
Assinatura: No canto
inferior direito, encontra-se gravada a marca d'água circular e esbranquiçada
com o monograma "MS" do fotógrafo.
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O Espelho da Promessa
Há um pacto antigo, assinado em
linhas de silêncio e suor, entre as gentes de Mairos e a terra que as viu
nascer.
Num chão onde o inverno castiga
com o frio e o verão morde com a sede, a água não é apenas um recurso; é uma
bênção líquida, um milagre manso guardado no peito da represa.
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Naquela tarde límpida, a brisa
corria suave vinda dos montes, desenhando pequenas rugas de prata na superfície
escura da água.
A grande represa repousava como
um gigante adormecido, um coração azul e profundo que guardava as lágrimas da
chuva para saciar, mais tarde, as veias abertas dos campos de cultivo.
Era dali, daquele repouso estagnado,
mas cheio de vida, que nascia a promessa do pão, da batata generosa e das
hortas que pintam o vale.
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Na margem, como testemunhas
humildes deste milagre diário, as flores brancas erguiam os seus caules finos.
Pareciam pequenas rendas bordadas
à mão pelas fadas do campo, balançando ao ritmo do vento, debruçadas sobre o
espelho de água como se quisessem beber a frescura antes que o sol de
Trás-os-Montes a reclamasse para si.
Elas sabiam que os seus pés,
enterrados na terra húmida, dependiam da generosidade daquele lençol líquido.
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Mais ao fundo, a colina vestia-se
de gala.
O verde dos carvalhos cruzava-se
com o ouro vivo das giestas em flor, criando uma moldura sagrada para aquele
altar de regadio.
Não se ouvia o ruído das
máquinas, apenas o sussurro da água contra a terra e o zumbido terno das
abelhas que cruzavam as margens.
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Olhar para a represa de Mairos é
perceber que o ser humano e a natureza podem, afinal, dançar a mesma melodia.
Naquele recanto suspenso no
tempo, a água represada não aprisionava a vida; pelo contrário, multiplicava-a
em cada rebento, em cada flor de renda e na esperança renovada de um povo que
sabe que, enquanto a represa estiver cheia, a alma da aldeia continuará a
pulsar verde e viva.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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