O Retalho de um Tempo Esquecido (estória) - Mário Silva

 



O Retalho de um Tempo Esquecido

 (estória)


Mário Silva




Do cimo da encosta, o velho Toino apoiava as mãos calosas no cajado de freixo, deixando o olhar perder-se sobre o vale verdejante que o vira nascer.

Aquela era a sua terra, uma pacata aldeia transmontana aninhada entre socalcos, lameiros e um arvoredo denso que respirava a frescura da montanha.

No entanto, cada vez que contemplava o casario lá em baixo, sentia um aperto no peito, como se estivesse a folhear um álbum de fotografias onde metade das páginas tivessem sido rasgadas e substituídas por recortes de revistas modernas.

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Na sua juventude, a aldeia era um corpo único.

As casas, erguidas com a pedra suada arrancada àquelas mesmas encostas, vestiam-se de telhas escuras, rústicas e gastas pelos invernos rigorosos.

Eram habitações que se fundiam com a terra, camufladas na paisagem como se tivessem brotado do próprio solo.

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Mas o tempo, esse escultor implacável, trouxe consigo os ventos da mudança.

Os filhos da terra partiram para França, para a Suíça ou para o Luxemburgo, fugindo da fome e da aspereza do campo.

Quando regressaram, nos meses de agosto, trouxeram nos bolsos os francos e a vontade férrea de mostrar que tinham vencido na vida.

E foi assim, casa a casa, que a aldeia começou a perder a sua identidade.

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Toino observava a manta de retalhos arquitetónica que se estendia a seus pés.

Lado a lado com os telhados escurecidos e aluídos pelo peso dos anos, erguiam-se agora telhados de um cor-de-laranja garrido e industrial.

As paredes rústicas de pedra nua partilhavam agora os becos com fachadas rebocadas e pintadas de branco imaculado, ou anexos caixote de tijolo moderno.

Lá ao fundo, rasgando a harmonia dos campos agrícolas, destacava-se até um longo pavilhão de chapa vermelha, impensável há umas décadas.

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Ele não os recriminava.

Sabia bem que as casas velhas eram geladas no inverno e que a tijoleira e o alumínio traziam um conforto que a sua geração nunca conhecera.

Mas, ao modernizarem os seus lares, apagaram a caligrafia dos antepassados.

A aldeia deixara de ser transmontana na sua essência visual para se tornar num subúrbio descontextualizado, plantado no meio da serra.

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O sino da pequena igreja branca, erguida à direita do povoado, tocou as badaladas do meio-dia.

O som ecoou pelo vale, puro e inalterado, exatamente igual ao que Toino ouvia quando era menino.

Suspirou, ajeitando a boina na cabeça.

A identidade da sua aldeia podia estar a esvair-se no cimento e na tinta fresca, mas enquanto aquele sino tocasse e a terra continuasse a dar fruto, uma réstia da velha alma transmontana continuaria ali, teimosa, a resistir à passagem do tempo.

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Estória & Fotografia: ©MárioSilva

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