"A importância do armazém transmontano"
Águas Frias, Chaves, Portugal
Mário Silva
A fotografia do arquivo de Mário
Silva capta, num plano picado, uma pequena e robusta edificação agrícola de
caráter tradicional inserida na paisagem rural de Águas Frias.
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A Estrutura Central:
Trata-se de um armazém de planta quadrangular construído com blocos de granito
claro e bem aparelhados.
A estrutura é encimada por um
telhado de quatro águas em telha cerâmica de um tom alaranjado e vivo,
envelhecido pelo tempo.
Na parede lateral direita,
vislumbra-se a abertura de uma porta rústica de madeira.
A Envolvente Agrícola: O
armazém encontra-se implantado no limite de terrenos cultivados.
Em primeiro plano, o solo de
terra batida exibe pequenas plantas em crescimento alinhadas em sulcos.
A rodear o edifício, destacam-se
árvores de fruto e arbustos de folhagem verde e densa, incluindo uma figueira à
direita e uma pequena laranjeira junto à parede de pedra.
O Horizonte: Ao fundo,
vislumbra-se a vastidão da paisagem transmontana, com encostas verdejantes e
vales que se estendem sob um céu esbranquiçado e nublado, característico de um
dia cinzento.
Assinatura: No canto
inferior direito, destaca-se o logótipo circular estilizado em tom esverdeado
com as iniciais "MS" do fotógrafo.
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O Cofre do Suor e da Terra
Diziam os antigos em Águas Frias
que a alma de um homem da terra não se guardava no baú do quarto, nem nos
bolsos das calças de cotim.
Guardava-se ali, naquelas quatro
paredes de granito maciço que desafiavam os invernos rigorosos e os verões de
brasa.
Para o velho Ti Arnaldo, aquele
pequeno armazém transmontano não era um depósito de tralhas; era o coração
pulsante de toda a sua existência.
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Visto do cimo do monte, sob o céu
pálido que ameaçava chuva mansa, o telhado alaranjado parecia uma coroa rústica
deitada sobre a rocha.
Quantas vezes, ao fim da tarde, o
Ti Arnaldo se sentara à sombra daquela figueira generosa, limpando o suor da
testa com as costas da mão, fitando a sua obra?
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Atrás daquela porta de madeira,
cujo fecho cantava sempre a mesma melodia guinchona, morava a verdadeira
riqueza de Trás-os-Montes.
Não havia ouro nem pratas.
Havia o aroma morno e telúrico
das batatas acabadas de arrancar, repousando na penumbra protetora; havia as
sacas de castanhas apanhadas nos soutos vizinhos, o restolho dourado para os
animais e as ferramentas de ferro pesado que tantas vezes lhe tinham calejado
as mãos.
O armazém era o cofre-forte que
garantia o pão de cada dia, o guardião dos segredos da terra trabalhada palmo a
palmo.
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Lá fora, os pequenos rebentos
rompiam timidamente do solo acastanhado, alinhados em sulcos perfeitos, bebendo
a humidade do ar.
Sabiam, na sua sabedoria vegetal,
que o seu destino final seria o resguardo daquelas pedras amigas.
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O progresso trouxe máquinas
grandes e barracões de chapa cinzenta, mas nenhum deles tinha a dignidade
daquele granito que parecia ter nascido do próprio chão.
O armazém transmontano permanecia
ali, altivo e silencioso, como um monumento ao esforço sem nome de gerações.
Era a certeza de que, enquanto
aquela estrutura estivesse de pé, guardando o fruto do suor dos homens, a
identidade daquela aldeia nunca haveria de morrer.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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