Um Dia da Águia de Asa Redonda:
A
Senhora dos Ventos (estória)
Mário Silva
O vento matinal soprava cortante
sobre as escarpas graníticas de Trás-os-Montes, varrendo a neblina que ainda
adormecia nos fundos dos vales.
No cimo de um carvalho
centenário, a sentinela preparava-se para o seu reinado diário.
Era uma águia-de-asa-redonda
(Buteo buteo), uma predadora majestosa cuja vida era ditada pelo ritmo das
correntes térmicas.
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Com um impulso muscular poderoso,
a ave abandonou o seu poiso e atirou-se para o abismo, entregando-se ao abraço
invisível do ar.
A imagem capta precisamente o
clímax dessa ascensão: a águia planando soberana contra a vastidão de um céu de
um azul profundo e sem nuvens.
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A Patrulha nas Alturas
Lá do alto, o mundo reduzia-se a
um tapete vivo de urze, lameiros e socalcos.
A águia não precisava de bater as
asas; o seu voo era um bailado perfeito de geometria e instinto.
Observada a partir do solo, a sua
silhueta exibia a envergadura imponente que lhe dá o nome, com as asas largas e
ligeiramente arredondadas bem esticadas, revelando os belos padrões de plumagem
castanha e branca no ventre e sob as penas de voo.
A cauda, curta e em forma de
leque, servia de leme exímio enquanto rasgava o firmamento.
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Tudo parecia pacífico na
imensidão azul, mas os olhos dourados da águia, verdadeiros radares biológicos,
varriam a terra com uma acuidade letal.
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O Mergulho
De súbito, a trezentos metros de
altitude, algo quebrou a rotina da paisagem.
Um pequeno movimento errático por
entre a vegetação rasteira.
Um rato do campo que, enganado
pelo silêncio, se aventurara fora da sua toca.
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Num milésimo de segundo, a pacata
planadora transformou-se num projétil de carne e osso.
A águia dobrou as asas,
colando-as ao corpo, e iniciou uma picada vertiginosa.
O vento sibilava furiosamente
pelas suas penas enquanto a velocidade aumentava de forma aterradora.
Era a morte que descia dos céus,
silenciosa, focada e inevitável.
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A meros metros do solo, quando o
impacto parecia fatal, a ave abriu de rompante a sua grande envergadura de
asas, travando a queda com um estrondo abafado de penas contra o vento.
As garras, até ali encolhidas,
projetaram-se para a frente como punhais afiados, agarrando a presa com uma
precisão cirúrgica.
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Com um grito estridente de
vitória que ecoou pelas fragas transmontanas, a águia bateu as asas com força
dobrada e voltou a erguer-se.
O dia estava apenas a começar, e
sob aquele céu impecavelmente azul, a ”Buteo búteo” provava mais uma vez por
que razão é a eterna guardiã dos céus selvagens do Norte.
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Estória & Fotografia: ©MárioSilva
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