“Pare...Escute...Olhe...Aqui nunca passou comboio" - Águas Frias - Chaves - Portugal

 

“Pare...Escute...Olhe...

Aqui nunca passou comboio"

Águas Frias - Chaves - Portugal



Esta é mais uma obra de Mário Silva captada em Águas Frias, Chaves, que demonstra o olhar atento do fotógrafo para o quotidiano rural, tingido com uma boa dose de ironia e humor tipicamente transmontano.

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A fotografia foca-se num portão de ferro antigo e artesanal, marcado por uma densa camada de ferrugem, que se atravessa num caminho de terra batida.

O portão, composto por barras verticais e um contrapeso rústico à direita, parece proteger a entrada de uma propriedade agrícola ou de um pasto.

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Ao fundo, a paisagem é dominada por árvores despidas, cujos ramos finos se recortam contra um céu azul pálido, denunciando o rigor do inverno na região.

A luz solar é clara, realçando a textura do ferro corroído e a aridez do solo coberto por restos de vegetação seca e musgo.

Não há carris, não há catenárias e, como o título indica, não há sinal de qualquer comboio.

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O Expresso de Águas Frias (ou a Linha do "Talvez")

Segurança Máxima em Terra de Ninguém

Mário Silva apresenta-nos o auge da segurança ferroviária portuguesa: o portão que guarda uma linha que não existe.

O título “Pare...Escute...Olhe...Aqui nunca passou comboio” é um golpe de génio humorístico que transforma um simples objeto agrícola numa paródia às famosas placas de sinalização das passagens de nível da CP.

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Em Águas Frias, a prudência é levada muito a sério.

Porquê arriscar ser atropelado por um comboio fantasma quando se pode colocar um portão de ferro com contrapeso para impedir o avanço de... bom, de qualquer coisa que tenha rodas e muita paciência?

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A Alta Velocidade Transmontana

Este portão é, possivelmente, a barreira física mais eficaz contra o isolamento.

Enquanto o país discute o TGV e a ligação por bitola europeia, em Chaves a infraestrutura já está pronta: temos o portão, falta apenas o resto.

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Diz-se que a ferrugem no metal não é desleixo, mas sim uma técnica avançada de camuflagem.

Assim, se um maquinista perdido vindo da Sierra de la Sanabria decidisse entrar por ali a dentro, ficaria tão confuso com a falta de carris que acabaria por estacionar a locomotiva e ir comer um folar de Chaves à aldeia mais próxima.

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Um Monumento à Esperança (ou ao Absurdo)

Há algo de poético e profundamente cómico nesta estrutura.

O portão está ali, hirto, cumprindo a sua missão de fechar o nada ao acesso de ninguém.

É o triunfo do "por via das dúvidas".

Se um dia a CP decidir expandir a rede e, por um erro de cálculo monumental de um estagiário de engenharia, traçar uma linha direta entre Chaves e Madrid a passar por aquele caminho, os proprietários já podem dizer: "Eu avisei! Olhem que o portão estava fechado!"

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No fundo, esta fotografia é uma celebração do espírito português: temos as regras, temos a sinalização (mental) e temos o portão.

Só nos faltam os carris, o comboio e, possivelmente, uma razão para ele passar ali.

Até lá, o melhor é seguir o conselho de Mário Silva: Pare, escute e olhe.

Se ouvir um apito, provavelmente é apenas o vento a rir-se entre as barras de ferro ferrugento.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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