O Caçador de Raios de Ouro (estória)
Mário Silva
Diziam os antigos na aldeia que a
velha habitação do Ti’ Bento não fora construída por pedreiros, mas sim por um
girassol teimoso que decidira transformar-se em pedra e cal.
Numa terra onde o inverno morde
com nove meses de frio cortante e o verão queima com três de inferno, a
disposição de uma habitação determinava a sobrevivência do corpo e o aconchego
da alma.
E aquela era, por direito e
sabedoria popular, "A casa virada pr'ó sol".
A Dualidade do Tempo
Quem caminhava pela ruela
estreita e empedrada ao final da tarde assistia a um espetáculo de luz
singular.
A propriedade dividia-se em duas
eras, quase como se o passado e o presente partilhassem o mesmo teto:
A Ala da Sombra e do
Resguardo: À direita, protegida por um muro de pedra rústica coberto de
hera e por uma árvore frondosa, erguia-se a parte mais antiga.
Com uma fachada escura de ripas
de madeira envelhecida e portadas cinzentas que pareciam fechar-se sobre
segredos de outrora, esta secção mantinha-se fresca, guardando no seu piso
térreo as pipas de vinho e as salgadeiras do bicho.
A Fachada da Luz: Mas era
à esquerda que o milagre transmontano acontecia.
Uma longa parede branca, erguida
sobre uma sólida base de cantaria, estendia-se como uma tela desenhada para
absorver a réstia final do dia.
Alinhadas milimetricamente, as
suas janelas e a pequena varanda de ferro com portadas verdes pareciam olhos
abertos, atentos, bebendo sofregamente o calor do crepúsculo.
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O Legado de Bento
O Ti’ Bento herdara a casa numa
altura em que a aldeia começava a esvaziar-se.
Os jovens partiam para as
capitais ou para o estrangeiro, mas ele recusava-se a deixar o vale.
Nas tardes de outono, quando o
vento gélido da serra começava a fustigar as copas das árvores, Bento abria a
porta da varanda verde e sentava-se no parapeito.
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Enquanto a ruela mergulhava na
penumbra cinzenta das sombras projetadas pelo muro, a sua fachada brilhava com
um tom dourado, quase incandescente.
O sol, antes de se esconder por
detrás das montanhas, concentrava ali toda a sua energia, aquecendo as pedras
de granito que, mais tarde, devolveriam esse calor ao interior da casa durante
a noite escura.
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"A nossa casa," dizia
Bento à sua neta, "tem de saber prender a luz. Quem tem o sol virado para
si, nunca fica completamente na solidão."
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Hoje, o Ti' Bento já não se senta
na varanda, mas a lição da arquitetura popular transmontana permanece intacta
na fotografia de Mário Silva.
Ali, na curva daquela estrada
deserta, a casa continua orgulhosamente de pé, desafiando as sombras do tempo e
aquecendo o olhar de quem passa com o abraço luminoso do eterno sol de
Trás-os-Montes.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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