"O ritual da matança da seba"
Mário Silva
Esta é uma imagem poderosa que capta a essência de uma das
tradições mais profundas do Portugal rural.
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A fotografia de Mário Silva, intitulada "O ritual da
matança da seba", é uma composição a preto e branco que exala força e
movimento.
A imagem regista um momento de intenso esforço coletivo: um
grupo de homens, unidos pela tarefa comum, lida com o corpo pesado de um porco
(a seba) num cenário campestre.
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A escolha do preto e branco acentua os contrastes da luz
solar, realçando as texturas das roupas de trabalho e a tensão muscular dos
intervenientes.
Ao fundo, vislumbra-se a tranquilidade da paisagem rural e
um segundo animal em repouso, criando um contraste narrativo entre a ação
frenética do primeiro plano e a quietude do ambiente.
A vinheta escura em redor da imagem foca o olhar do
observador no centro da ação, transformando o trabalho manual num momento quase
coreografado.
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A Matança da Seba – Mais que um Costume, um Pilar
da Comunidade
O título da obra de Mário Silva remete-nos para uma
expressão que faz parte do léxico emocional de muitas aldeias portuguesas.
A "seba" é o porco que foi alimentado e cuidado ao
longo de um ano inteiro, muitas vezes com os restos da colheita e o que de
melhor a terra deu.
A sua matança não é apenas um ato de subsistência; é um
ritual de sobrevivência e de coesão social.
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O Ciclo da Entreajuda
No Portugal profundo, a matança do porco nunca foi uma
tarefa solitária.
Como a fotografia ilustra com mestria, este é um evento que
exige a força do coletivo.
É um momento de entreajuda: hoje ajuda-se num
vizinho, amanhã o vizinho retribui.
Este ciclo de cooperação reforça os laços comunitários que,
de outra forma, poderiam diluir-se no isolamento do campo.
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O Ritual e a Memória
O termo "ritual" no título é particularmente
apropriado.
Existe uma ordem estabelecida, um saber-fazer passado de
geração em geração:
O Inverno: A época escolhida (normalmente
entre dezembro e janeiro) devido ao frio, essencial para a conservação da
carne.
A Lida: O processo que envolve homens e
mulheres em tarefas distintas, desde o corte até à preparação dos enchidos.
O Fumeiro: A transformação da carne em
presuntos, chouriços e alheiras, que garantirão o sustento da família durante
os meses seguintes.
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O Olhar Contemporâneo
Embora as normas de saúde pública e a modernização tenham
alterado a forma como estas práticas ocorrem, o registo de Mário Silva
imortaliza a dimensão antropológica do evento.
A fotografia não celebra a morte do animal, mas sim a
vitalidade de uma cultura que se recusa a esquecer as suas raízes.
É um testemunho da relação direta do ser humano com a sua
alimentação, despida dos artifícios do consumo industrializado.
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A "matança da seba" continua a ser, no imaginário
coletivo, o símbolo da abundância conquistada com o suor do rosto e a união de
braços amigos.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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