Um dia de um Abelheruco
(Merops apiaster)
Mário Silva
A fotografia de Mário Silva é um
plano aproximado de extraordinária definição que capta a beleza exótica e a
postura alerta de uma das aves mais coloridas da avifauna europeia.
O Sujeito: O abelheruco
está empoleirado de perfil sobre um cabo ou fio elétrico diagonal.
A sua plumagem exibe uma paleta
vibrante: o dorso em tons de castanho-avermelhado e ocre, o peito num
azul-turquesa luminoso, a garganta amarela delimitada por um colar preto, e a
icónica máscara negra que lhe atravessa o olho de íris avermelhada.
O bico, longo e ligeiramente
curvo, aponta firmemente para a frente, enquanto a ave roda a cabeça para
observar o que se passa atrás de si.
Composição e Fundo: O
fotógrafo optou por um fundo minimalista e completamente focado no infinito
(com um efeito bokeh suave em tons esbranquiçados), o que anula qualquer
distração e faz sobressair os contornos nítidos e as cores exuberantes da ave.
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O Dia de um Abelheruco em Terras Transmontanas
A manhã nasce rústica e agreste
nas encostas de Trás-os-Montes.
O sol rasga o nevoeiro que teima
em repousar sobre os vales profundos e, num estalar de luz, acorda o habitante
mais vaidoso da região.
Ele não pertence à paleta
cinzenta do granito nem ao verde austero dos oliveirais; ele é um estilhaço de
arco-íris que decidiu ganhar asas.
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O dia do abelheruco começa com o
restauro das joias.
No cume de um fio antigo que cose
os céus das aldeias transmontanas, ele limpa as penas com o bico afilado.
O castanho do seu dorso parece
roubado à terra crestada pelo sol de verão; o amarelo da sua garganta é o
restolho dos campos ceifados; e o azul do seu peito é o próprio céu puro do
Nordeste Interior que ele carrega colado ao corpo.
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Com um grito alegre e chilreante
— um eco metálico que acorda as giestas —, lança-se no ar.
O voo é uma dança acrobática, uma
perseguição geométrica às abelhas e aos insetos que zumbem no calor que começa
a apertar.
Ele plana, mergulha e curva com a
facilidade de quem é dono do vento.
Cada captura é um estalido
preciso do seu bico longo.
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Ao meio-dia, quando o calor
transmontano abranda os passos dos homens e recolhe os rebanhos à sombra, o
abelheruco regressa ao seu miradouro de metal.
Ali fica, suspenso entre o céu e
a terra, com o olhar vivo e vigilante rodando a cabeça para que nenhum
movimento lhe escape.
Pensa, talvez, nos túneis de
areia que escavou na barreira do rio, onde os seus ovos guardam o futuro da sua
linhagem colorida.
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Quando a tarde cai e os tons de
fogo pintam as fragas de granito, ele recolhe.
O abelheruco fecha as asas, mas
não apaga as cores.
Adormece no coração da terra
fria, sabendo que, amanhã, o seu voo voltará a desenhar a primavera nos céus de
Trás-os-Montes.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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