O Guardião do Tempo:
O Segredo do Puxador de Ferro (estória)
Mário Silva
Nas ruelas labirínticas de uma
aldeia perdida nas profundezas de Trás-os-Montes, existia uma habitação que os
habitantes evitavam mencionar após o cair do sol.
No centro daquela porta de
madeira seca, grelhada pelos verões e castigada pelos invernos, residia o que
os locais chamavam, em sussurros, de “O puxador encantatório”.
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Dizia a lenda que aquele não era
um simples objeto de metal.
A sua forma ornamentada, um
entrelaçado de curvas que parecia desafiar a lógica da geometria, estava agora
devorada por uma ferrugem ancestral e velada por uma densa rede de teias de
aranha, que se estendiam como fios de seda de um tempo esquecido.
A chapa da fechadura, fixa à
madeira por pregos rudimentares e oxidados, exibia um buraco de chave negro,
como um olho atento que vigiava o destino de quem ousava aproximar-se.
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Hermenegildo, um jovem
aventureiro movido pela curiosidade, parou diante daquela entrada secular.
O silêncio da aldeia era
absoluto, apenas interrompido pelo vento que uivava por entre as pedras de
granito.
Ele estendeu a mão, sentindo a
adrenalina percorrer-lhe o corpo.
Sabia o aviso dos antigos:
"Quem agarrar o ferro sem fé, fica preso à história que ele esconde".
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Ao aproximar os dedos daquela
peça de metal trabalhada, as teias de aranha pareceram vibrar, reagindo à sua
presença como se fossem extensões de um ser vivo.
O toque foi gélido, uma descarga
de eletricidade estática que parecia emanar do coração da própria montanha.
Num gesto impetuoso, Hermenegildo
fechou a mão sobre o puxador.
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Nesse instante, o mundo em redor
pareceu dissolver-se.
Não ouviu o ranger das
dobradiças, mas sim um coro de sussurros que brotavam da madeira gasta e
rugosa.
Imagens de contrabandistas
cruzando a fronteira, de mulheres rezando ao redor da lareira e de segredos
enterrados sob o granito invadiram a sua mente.
O puxador não era apenas uma
ferramenta para abrir uma porta; era um selo místico, um elo entre o presente e
as memórias indomáveis da raça transmontana.
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Hermenegildo não abriu a porta.
Percebeu que o verdadeiro
encantamento era a própria espera, a preservação do mistério sob aquela crosta
de ferro e teias.
Afastou-se, mas levava consigo
algo que ninguém mais tinha: a certeza de que, naquela aldeia, até um simples
pedaço de metal ferrugento era um portal para o infinito.
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E você, teria coragem de rodar este puxador?
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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