Picanço-barreteiro (Lanius senator)
a ave migrante empaladora
Mário Silva
O Pequeno Carrasco de Barrete Ruivo
A viagem fora longa e extenuante.
Desde as savanas quentes da África subsaariana, cruzando o vasto deserto e o traiçoeiro Estreito de Gibraltar, o instinto guiara-o de volta às terras quentes do interior de Portugal.
Ele era um Picanço-barreteiro (Lanius senator), um viajante incansável de asas curtas, mas de uma determinação férrea.
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Como perfeitamente imortalizado na fotografia, o pequeno pássaro repousava agora no topo de um arbusto verdejante, banhado pela luz dourada e difusa de um final de tarde transmontano.
A sua postura era de absoluta realeza.
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A Máscara do Caçador
Qualquer observador incauto que olhasse para o seu peito branco e macio, ou para o seu elegante dorso castanho e negro, poderia confundi-lo com um inofensivo pássaro canoro.
Mas a sua verdadeira natureza estava estampada no rosto.
Sobre os olhos escuros e perspicazes, exibia uma indomável "máscara" negra, encimada por um vistoso barrete cor de tijolo que lhe conferia um ar simultaneamente distinto e ameaçador.
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No entanto, a sua verdadeira arma era o bico.
Forte e ostentando uma pequena curva em forma de gancho na ponta — digna de uma águia em miniatura —, aquele bico não fora feito para debicar sementes, mas sim para rasgar.
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A Despensa de Espinhos
O picanço, a quem os locais muitas vezes chamam de "carniceiro", estava com fome, mas também pensava no futuro.
A época de acasalamento exigia energia e, acima de tudo, exigia impressionar uma futura parceira com a sua capacidade de providenciar sustento.
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Do seu poleiro privilegiado, a sua visão aguçada varreu o matagal.
O silêncio do campo foi apenas quebrado pelo zumbido pesado de um grande escaravelho que aterrava num ramo seco lá em baixo.
Num ápice, a ave de barrete ruivo deixou-se cair.
O voo foi silencioso, rápido e letal.
Não houve sequer tempo para o inseto tentar a fuga; o bico adunco do picanço prendeu-o com a precisão de uma tenaz.
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Mas o instinto do ”Lanius senator” é peculiar.
Em vez de devorar a sua presa de imediato, voou com ela até um espinheiro próximo.
Com movimentos rápidos e calculados, empalou o escaravelho num dos longos e afiados espinhos do arbusto.
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O Senhor do Matagal
Aquele espinho não era apenas um prato; era um cabide macabro, a sua despensa ao ar livre.
Ali, o picanço-barreteiro guardava insetos, pequenos lagartos e até pequenos roedores para os dias em que a caça escasseasse ou para exibir como troféus.
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Satisfeito com o seu trabalho, o pequeno e impiedoso caçador regressou ao seu ramo verde, o mesmo onde Mário Silva o captou em todo o seu esplendor.
Alheio à crueldade da sua sobrevivência, o picanço-barreteiro limitou-se a estufar o peito contra o vento morno, fundindo-se com a paleta dourada do campo, o indiscutível e belo senhor do seu pequeno reino de espinhos.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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