“Pare de me olhar assim ...”

 


“Pare de me olhar assim ...”





Esta fotografia de Mário Silva, captada no final de abril, é um retrato íntimo que transborda personalidade e uma certa ironia doce, típica das gentes e dos bichos do Nordeste Transmontano.

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A imagem apresenta um grande plano do rosto de um burro, que inclina a cabeça de forma curiosa e quase desafiadora em direção à objetiva.

A sua pelagem é castanha escura e densa, com texturas que revelam a rusticidade da vida ao ar livre, destacando-se o branco suave em redor do focinho e dos olhos.

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Um pormenor fundamental é a corda rústica de cor alaranjada que lhe circunda o pescoço, terminando num nó desfiado que pende livremente.

O fundo, propositadamente desfocado, revela a frescura de um prado verde e ramos secos que começam a despertar para a primavera, mantendo todo o foco na expressividade do olhar do animal.

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O Tribunal do Olhar — Quando o Silêncio nos Desarma

O título “Pare de me olhar assim...” é um desabafo humano perante a honestidade brutal de um animal que não sabe mentir.

Em Trás-os-Montes, o burro não é apenas uma ferramenta de carga; é um confidente silencioso, um filósofo das fragas que observa o mundo com uma paciência milenar.

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A Inquisição da Doçura

Nesta fotografia, Mário Silva capta o momento exato em que o observador se torna o observado.

Com a cabeça inclinada, este burro parece questionar as nossas pressas, as nossas angústias de papel e a nossa desconexão da terra.

O seu olhar não julga, mas penetra; é um olhar que pede conta da nossa humanidade.

Dizer "pare de me olhar assim" é, na verdade, admitir que fomos apanhados em flagrante pela pureza de quem nada possui e tudo entende.

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A Nobreza do Pêlo e da Corda

Há uma dignidade imensa na pelagem desalinhada e na corda gasta que lhe serve de arreio.

São as marcas de uma vida de trabalho, mas também de uma liberdade que nós, aprisionados em horários, raramente conhecemos.

A orelha atenta e o focinho aveludado convidam ao toque, enquanto o olhar nos mantém à distância respeitosa que se deve a um sábio.

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O Espelho de Trás-os-Montes

Este animal é o símbolo vivo de uma região que resiste.

Tal como o povo transmontano, este burro é feito de resiliência e mansidão, mas também de uma teimosia sagrada em permanecer fiel à sua essência.

Mário Silva não fotografou apenas um animal; ele emoldurou uma consciência.

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No final, resta-nos baixar o olhar ou sustê-lo com a mesma coragem.

Porque, enquanto ele nos olhar "assim", saberemos que ainda há esperança para um mundo que saiba valorizar a paz de um pasto e a profundidade de uma alma que se expressa sem emitir um único som.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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