O dia mais belo do ano
(Vá-se lá saber porquê!)
Mário Silva
Acordou o mundo com um brilho de
prata nas arestas das coisas, uma claridade que não se explica pelos boletins
meteorológicos nem pela inclinação do eixo da Terra.
Há manhãs que trazem consigo uma
promessa muda, um segredo que a luz segreda ao balanço das cortinas.
Hoje, o café parece ter o aroma
de todas as viagens por fazer e o ar, ao entrar no peito, chega com uma leveza
de quem acaba de ser inventado.
.
Não há bandeiras hasteadas nas
praças, nem feriados gravados no calendário de parede.
O trânsito mantém o seu ritmo de
metal e pressa, e os pássaros, no jardim, não ensaiaram nenhuma sinfonia nova.
No entanto, há um alvoroço
invisível que tudo toca.
É como se o universo tivesse
decidido, num capricho de mestre, afinar todos os instrumentos pelo tom do
nosso silêncio.
.
Caminha-se com um passo mais
firme, mas sem urgência.
Olhamos para os desconhecidos e
parece-nos adivinhar neles uma bondade latente, uma fraternidade que nos outros
dias o cinzento esconde.
É um estado de graça que não
pediu licença para entrar, uma harmonia súbita entre o que somos e o espaço que
ocupamos.
.
Vá-se lá saber porquê!
Talvez seja a geometria exata de
uma sombra no passeio, ou a forma como o vento despenteia as acácias.
Ou talvez seja apenas o coração
que, por um motivo que a razão desconhece, decidiu celebrar o simples facto de
estar aqui, inteiro, a ver o sol subir.
Há dias que são portos de abrigo,
momentos em que o tempo parece pedir desculpa pela sua passagem veloz e se
senta connosco à mesa, apenas para nos ver sorrir.
.
É o dia mais belo do ano porque
não precisa de razões para o ser.
É belo na sua pureza, no seu
mistério, nessa estranha e doce certeza de que, hoje, o mundo está exatamente
onde deveria estar.
.
Texto & Fotografia: ©MárioSilva
.
.
Sem comentários:
Enviar um comentário