"O pardalito e o entardecer" - Águas Frias, Chaves, Portugal - Mário Silva

 



"O pardalito e o entardecer"

Águas Frias, Chaves, Portugal

Mário Silva

A imagem capta a silhueta da natureza ao crepúsculo na aldeia transmontana de Águas Frias.

Em primeiro plano, ramos e folhas de uma macieira recortam-se em contra-luz contra o céu, exibindo pequenos frutos verdes em crescimento.

À esquerda, empoleirado no topo de um telhado tradicional de telha cerâmica, vislumbra-se a pequena silhueta escura de um pardalito pousado junto ao pináculo decorativo de uma habitação.

O plano de fundo é dominado por um horizonte em tons de laranja, dourado e cinzento, onde o sol se põe suavemente por trás das nuvens.

No canto inferior direito, surge o monograma circular "MS" do autor.

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O Último Trinado do Sol

Quando o dia em Águas Frias decide recolher as suas ferramentas e dobrar o manto de luz, o mundo inteiro abranda para ouvir o silêncio.

É nessa hora suspensa, em que o céu transmontano se incendeia em tons de oiro velho e mel, que o pardalito assume o seu posto mais alto.

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Não é uma ave de rapina imponente, nem tem o colete garrido dos cantores da primavera; é apenas um pequeno habitante do granito, vestido com a cor da terra.

Mas ali, empoleirado na crista do telhado, junto ao pináculo que aponta para o infinito, ele é o guardião oficial do crepúsculo.

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Os seus olhos pequeninos fitam a linha do horizonte onde o sol se deita devagarinho, como uma brasa que se apaga no aconchego das nuvens cinzentas.

À sua volta, as folhas da macieira tremem com o primeiro sopro frio da noite, embalando as pequenas maçãs que ainda guardam no peito o calor da tarde que fenece.

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O pardalito não canta para as multidões.

O seu trinado nesta hora é um segredo confidenciado ao vento, uma prece humilde de agradecimento por mais um dia vivido no abrigo da aldeia.

Ele vê as luzes das cozinhas a acenderem-se lá em baixo, sente o cheiro a fumo de lenha que começa a subir das chaminés, mas recusa-se a descer antes que a última nesga de laranja se desfaça na escuridão.

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Naquele instante de pura melancolia e beleza telúrica, o pássaro e o entardecer fundem-se numa só silhueta.

O tempo para.

E no topo do mundo de pedra, a pequena ave aconchega as asas, sabendo que, enquanto houver um entardecer a colorir Trás-os-Montes, haverá sempre um recanto de paz para quem sabe contemplar a despedida do sol.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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