"Entre o Sagrado (torre sineira) e o Profano (relógio de sol)" - Águas Frias, Chaves, Portugal - Mário Silva

 


"Entre o Sagrado (torre sineira) e o Profano (relógio de sol)"

Águas Frias, Chaves, Portugal

Mário Silva



A imagem capta, num ângulo contra-picado e sob a luz dourada do fim de tarde, o topo de uma estrutura eclesiástica de granito rústico.

No centro da composição ergue-se a imponência da torre sineira (o Sagrado), com as suas arcadas vazias e coroada por uma cruz metálica que aponta para o céu.

Em plano mais próximo, do lado direito, destaca-se um pináculo piramidal que sustenta um antigo relógio de sol vertical de formato circular (o Profano), cujas linhas e numeração romana gravadas na pedra medem a passagem do tempo terreno.

Uma guarda metálica une visualmente os dois elementos arquitetónicos contra um céu limpo de tonalidade suave.

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As Duas Faces do Tempo em Águas Frias

Na pacata freguesia de Águas Frias, no concelho de Chaves, a pedra granítica não serve apenas para erguer paredes; serve, sobretudo, para balizar a existência humana.

A lente de Mário Silva imortalizou um diálogo silencioso e secular que reside no topo da igreja local, sintetizado de forma brilhante no título: "Entre o Sagrado (torre sineira) e o Profano (relógio de sol)".

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Esta justaposição arquitetónica convida-nos a refletir sobre as duas dimensões que regeram — e continuam a reger — a vida nas comunidades rurais transmontanas.

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O Tempo Divino: A Torre Sineira

À esquerda da composição, a torre sineira projeta-se verticalmente em direção ao infinito, culminando na simplicidade de uma cruz.

Historicamente, o toque dos sinos representava o controlo do tempo sagrado.

Era a voz da igreja que convocava para a missa, que chorava as partidas nos funerais ou que alertava a aldeia para os perigos iminentes do fogo ou da tempestade.

Este é o tempo da fé, imutável, eterno e vertical, focado no plano espiritual.

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O Tempo Humano: O Relógio de Sol

Em claro contraste, mas partilhando a mesma matéria-prima, ergue-se à direita o relógio de sol.

Este mecanismo representa o tempo profano, a dimensão puramente terrena e horizontal.

Orientado pelos ciclos cósmicos e pela rotação do planeta, o relógio de sol regulava o trabalho no campo: a hora de pegar na enxada, o momento de regar os campos ou a pausa para a merenda à sombra dos carvalhos.

Trata-se de um tempo utilitário, perecível e dependente da luz solar para existir.

 

Um Equilíbrio de Granito

O aspeto mais fascinante da imagem de Mário Silva é a proximidade física e a harmonia estética entre ambos os elementos.

Unidas por um discreto varandim de metal, as duas estruturas mostram que, no interior profundo de Portugal, o sagrado e o profano nunca andaram desavindos.

Pelo contrário, complementavam-se.

O camponês que olhava para o relógio de sol para medir a sua jornada de trabalho era o mesmo que, ao ouvir o dobre da trindade vindo da sineira, interrompia o labor para fazer uma prece.

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Banhada pela luz quente do entardecer — ela própria o elemento que dá vida ao relógio e doura o granito sagrado —, a fotografia funciona como um manifesto à pacificação do tempo.

Em Águas Frias, longe do bulício frenético dos relógios digitais contemporâneos, a eternidade e o quotidiano continuam a partilhar o mesmo pedaço de céu.

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Texto & Fotografia: MárioSilva

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