"Dia do Corpo de Deus"
Mário Silva
A fotografia de Mário Silva regista com grande riqueza
etnográfica e solenidade uma procissão tradicional que percorre uma artéria
rural.
Composição e Cenário: A imagem está estruturada ao
longo de uma rua estreita de uma aldeia, ladeada por habitações tradicionais
que combinam a trave de granito com fachadas caiadas.
Ao fundo, ao centro, sobressai a torre sineira da igreja
paroquial, recortada contra uma paisagem de encostas esverdeadas.
Elemento Central: O foco converge para o pálio
processional (a cobertura de tecido suportada por varas), sob o qual o
sacerdote caminha transportando o ostensório.
O pálio é ladeado por homens que envergam opas vermelhas.
Participantes: Na frente do cortejo, caminham
participantes vestidos com túnicas brancas.
Nas alas laterais, observam-se mulheres com trajes
tradicionais escuros e lenços pretos à cabeça, integradas numa vasta multidão
de fiéis que preenche a rua.
Decorações e Ambiente: O chão de pedra está
completamente coberto por um trabalhado tapete floral de pétalas coloridas e
caruma, desenhando motivos geométricos e religiosos.
As varandas de ferro e pedra das casas encontram-se
engalanadas com colchas rústicas e tecidos decorativos.
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A Fé que Cose as Ruas
Origem e
Significado do Corpo de Deus
O título da fotografia de Mário Silva, "Dia do Corpo de
Deus", remete instantaneamente para uma das celebrações mais profundas e
visualmente ricas do calendário litúrgico católico.
A imagem captada pelo fotógrafo não é apenas o registo de um
momento; é a manifestação viva de uma tradição secular que transforma o espaço
público num templo a céu aberto.
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A Origem da Celebração
A Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
(conhecida em Portugal como o Dia do Corpo de Deus) teve a sua origem no século
XIII.
O impulso partiu das visões de Santa Juliana de Cornillon,
na Bélgica, que reclamavam uma festa específica para honrar o sacramento da
Eucaristia.
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Contudo, foi o chamado "Milagre Eucarístico de
Bolsena", em 1263 — onde, segundo a tradição, uma hóstia consagrada
sangrou durante a missa —, que levou o Papa Urbano IV a instituir oficialmente
a celebração para toda a Igreja Universal, através da bula “Transiturus” em
1264.
Em Portugal, a festividade ganhou contornos oficiais muito
cedo, corria o século XIII, tornando-se historicamente uma das procissões mais
imponentes e participadas pelas corporações de ofícios, municipalidades e
nobreza.
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O Significado para os Católicos
Para a comunidade católica, este dia encerra um significado
teológico e espiritual de extrema importância.
Enquanto a Quinta-Feira Santa recorda a instituição da
Eucaristia num ambiente de recolhimento e intimidade que antecede a Paixão, a
Solenidade do Corpo de Deus é uma explosão de júbilo público.
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Neste dia, os católicos celebram o dogma da presença real de
Jesus Cristo no pão e no vinho consagrados.
A essência do dia reside no ato de retirar o Santíssimo
Sacramento do interior das igrejas e levá-lo a caminhar pelo meio do povo.
É o simbolismo de um Deus que não está distante, mas que
caminha com a comunidade, abençoando as ruas, as casas e o quotidiano dos
homens.
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A Fotografia como Espelho da Devoção
A obra de Mário Silva traduz com precisão esta teologia da
proximidade.
Ao vermos o pálio avançar sobre o tapete de pétalas,
percebemos que a comunidade oferece o que tem de mais belo — a arte efémera das
flores, as melhores colchas à varanda — para saudar a passagem do sagrado.
A sobriedade dos trajes negros em contraste com a alvura das
túnicas e o colorido do chão espelha o respeito transmontano pela memória e
pelo rito.
É a identidade de um povo que, ano após ano, continua a
calcar o granito com a mesma devoção dos seus antepassados.
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Texto & Fotografia (IA): ©MárioSilva
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