"O verde do abandono"
Águas Frias – Chaves - Portugal
Esta fotografia de Mário Silva, captada
em Águas Frias (Chaves), é um poderoso testemunho visual sobre a passagem do
tempo e a persistência da natureza perante a ausência humana.
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A obra utiliza a técnica de cor
seletiva sobre um fundo desaturado (preto e branco), o que isola e enfatiza o
verde vibrante da vegetação que reclama o seu espaço entre as ruínas.
Composição e Texturas: A
cena é dominada pela rusticidade da pedra granítica, típica da região
transmontana.
À esquerda, uma parede de
cantaria imponente e uma escadaria de pedra sugerem uma construção sólida que
outrora albergou vida e histórias.
À direita, uma estrutura de
madeira em colapso e um muro de blocos revelam a fragilidade dos materiais face
ao abandono.
O Elemento Humano: No
primeiro plano, uma cadeira de plástico branca destaca-se como um anacronismo.
Limpa e intacta, contrasta com a
erosão ao seu redor, servindo como um símbolo melancólico da presença humana
que partiu, deixando para trás um lugar de espera.
A Invasão Verde: O verde
surge nas frestas, nos arbustos floridos e na relva que cresce livremente.
É o único elemento
"vivo" numa imagem que, de outra forma, seria um inventário de
inércia e poeira.
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A Paciência do Verde
Em Águas Frias, as pedras têm
memória, mas os homens têm pressa.
Houve um tempo em que os degraus
de granito conheciam o peso dos passos cansados e o som das chaves a rodar na
fechadura.
Hoje, o granito apenas conhece o
sol e a paciência líquida do musgo.
O título "O verde do
abandono" não é um lamento, mas uma crónica de uma ocupação mansa.
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"A natureza não conhece o
conceito de ruína; para ela, uma casa que cai é apenas um novo solo por
conquistar."
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A cadeira branca, náufraga de
polímero num mar de pedra cinzenta, é o último sentinela de um tempo que já não
volta.
Ela espera, com a teimosia dos
objetos esquecidos, por alguém que se sente para ver o entardecer sobre Chaves.
Mas quem chega não é o dono, é o
verde.
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O verde não pede licença.
Sobe pelas fendas da madeira
podre, abraça as portadas que já não fecham e floresce, indiferente à solidão
dos homens.
É um oceano vegetal que, gota a
gota, folha a folha, vai desfazendo as arestas do que chamamos
"progresso".
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Nesta fotografia, o abandono não
é um fim, mas um recomeço.
É o momento exato em que a vida
selvagem decide que já esperou o suficiente pelo regresso da humanidade e
resolve, finalmente, sentar-se à mesa do tempo para jantar o que resta da
memória.
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Texto & Fotografia: ©MárioSilva
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