"O batente encarnado"



"O batente encarnado"




A fotografia de Mário Silva, intitulada "O batente encarnado", é uma obra tátil e evocativa que se foca num close-up detalhado de um aldravão metálico em forma de pêra (um batente de porta).

O batente, suspenso de um gancho idêntico, está pintado de um encarnado vivo e desgastado, com a tinta a descascar e revelar o metal nu por baixo.

Este objeto está fixado na superfície de uma porta de metal escura e rugosa, repleta de marcas de tempo e uso, com algumas manchas de ferrugem e arranhões.

À direita, uma secção de pedra de granito áspera e antiga dá contexto à entrada.

O elemento mais notável é a marca de impacto nítida e mais clara na porta preta, que imita perfeitamente a forma do aldravão.

Esta marca é o eco visual de anos de batidas repetidas, revelando o metal puro onde a tinta preta foi gasta.

A composição foca na interação entre a cor encarnada do batente e a sua "assinatura" gasta na superfície escura, com a marca d'água do autor visível no canto inferior esquerdo.

 

O Batente Encarnado

Ensaio Poético sobre o Tema e Título

É um grito de encarnado no abismo do escuro.

Um aldravão que se recusa a ser silêncio, a ser apenas metal frio.

A sua cor é sangue e fogo, paixão de uma vida que chora para entrar.

Pendula como o próprio tempo, marcando os segundos em batidas de aço contra a negridão da porta, de um metal que também já foi jovem e preto.

Agora, a porta é um mapa de cicatrizes, um testemunho mudo de todas as chegadas e partidas.

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Mas o batente não é apenas o que vemos.

É, acima de tudo, o que não vemos.

É a ausência de todas as mãos que o seguraram, de todas as esperas nervosas, de todos os segredos confiados àquele anel de encarnado.

E o seu eco mais fiel não é o som que faz, mas a marca que deixa.

O seu "espírito" na porta.

Uma sombra de metal gasta, mais clara, que imita a sua forma perfeitamente.

Um fantasma que sobrevive ao seu toque, uma prova de que a presença, mesmo quando gasta, deixa uma marca indelével na matéria.

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O encarnado descasca, revela o metal nu e ferido.

Como uma pele que se solta, revelando o osso da história.

A porta preta, no seu desgosto, tentou apagar o grito encarnado, mas a batida foi mais forte.

É uma luta contínua entre a luz do encarnado e a sombra da porta, entre o desejo de entrar e a relutância da porta em ceder.

E, no meio de tudo, o tempo, o escultor silencioso que desgasta ambos, tornando o encarnado gasto e o preto um véu de memórias.

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A pedra áspera de granito, ao lado, é uma testemunha impassível.

Viu o batente ser pintado de fresco, viu a primeira mão segurá-lo, viu a última.

É o batente como um guardião, mas também como um prisioneiro do seu próprio movimento, um momento de uma casa que talvez já não tenha quem a chame.

O encarnado, cor da vida, é aqui a cor da memória persistente, de uma presença que se recusa a ser esquecida, mesmo quando gasta até ao osso do metal.

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A marca é a prova.

A prova de que a vida deixa uma marca, de que o desejo de ligação, de entrar, é mais forte que o tempo.

O batente encarnado, no seu desgaste, é um monumento à persistência da memória, a um eco que sobrevive ao som, a uma presença que sobrevive à ausência.

E o encarnado, gasto e ferido, é, em si mesmo, uma oração de permanência no escuro.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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