“As árvores nem sempre morrem de pé” - Mário Silva

 

“As árvores nem sempre morrem de pé”

 Mário Silva


Esta fotografia de Mário Silva, é uma composição que convida à reflexão sobre a resiliência e a inevitabilidade do tempo.

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A imagem transporta-nos para um ambiente rural autêntico, numa aldeia transmontana.

Em primeiro plano, o elemento central é o tronco robusto e retorcido de uma árvore (com aspeto de ser uma figueira dada a sua estrutura e casca acinzentada) que, contrariando o adágio popular, tombou ou cresceu de forma quase horizontal.

O tronco atravessa a composição, cruzando um pequeno caminho de terra batida.

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Ao fundo, observamos habitações de traça tradicional.

Uma delas apresenta paredes de pedra nua e um telhado de quatro águas envelhecido, enquanto outra, mais ao lado, exibe paredes brancas.

O cenário é completado por um céu azul límpido e uma luz solar clara que realça as texturas da madeira seca e da vegetação rasteira que começa a cobrir o solo.

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A Dignidade na Queda – Quando a Natureza Escreve o seu Próprio Roteiro

O título desta obra de Mário Silva é uma subversão inteligente e poética do título da famosa peça de teatro de Alejandro Casona, "Los árboles mueren de pie" (As Árvores Morrem de Pé).

Se, na literatura, a expressão serve como metáfora para a dignidade e a força moral de quem se mantém firme até ao fim, a lente de Mário Silva propõe-nos uma realidade mais crua, mas não menos bela.

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O Mito vs. A Realidade

O provérbio sugere que a honra reside na verticalidade.

No entanto, na natureza — e na vida das aldeias do interior de Portugal — a sobrevivência exige, muitas vezes, a capacidade de se curvar, de cair e de continuar a existir noutra forma.

A árvore que vemos na fotografia não "desistiu"; ela adaptou-se à gravidade, ao vento ou ao peso dos anos.

Mesmo tombada, ela permanece ligada à terra, servindo de marco no caminho e de abrigo para a pequena fauna.

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Metáfora do Mundo Rural

Há uma analogia poderosa entre esta árvore e as próprias aldeias transmontanas que Mário Silva tão bem documenta.

Muitas destas localidades, fustigadas pela desertificação, parecem estar "caídas" aos olhos de quem as vê de fora.

Mas, tal como o tronco da foto, elas possuem uma estrutura que resiste.

As casas de pedra ao fundo, com os seus telhados musgosos, são testemunhas de gerações que souberam viver com o que a terra lhes dava.

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A Beleza da Imperfeição

A fotografia celebra a estética do que é torto e do que não segue a linha reta.

Num mundo que valoriza a perfeição geométrica e a juventude eterna, o registo desta árvore "que não morreu de pé" é um hino à autenticidade.

Ela conta uma história de invernos rigorosos e de verões tórridos.

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Ao captar este momento, o fotógrafo recorda-nos que não há vergonha na queda.

Existe, sim, uma forma profunda de dignidade em permanecer presente, em ocupar o espaço e em continuar a fazer parte da paisagem, mesmo quando o destino nos obriga a mudar de perspetiva.

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Texto & Fotografia: ©MárioSilva

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