“A hera que era ... trepadeira, desde pequenina" – Mário Silva

 

“A hera que era ... 

trepadeira, desde pequenina"

Mário Silva


Esta é uma bela composição de Mário Silva, que joga com a textura e a persistência da natureza.

A imagem apresenta uma imponente rocha de granito, típica das paisagens rurais portuguesas, servindo de suporte a uma exuberante hera variegada (tons de verde e creme).

A planta cai sobre a pedra como um manto orgânico, contrastando a dureza mineral com a suavidade das folhas.

No plano de fundo, vislumbram-se troncos de árvores despidos ou cobertos de líquenes, sugerindo uma atmosfera de inverno.

A luz solar incide lateralmente, realçando as cores vibrantes da hera e as sombras profundas sob a rocha.

O chão está coberto por um tapete de folhas secas e erva rasteira, conferindo à cena uma organicidade serena e intemporal.

.

A Vocação da Hera e o Tempo da Pedra

O Destino Escrito no Caule

O título escolhido por Mário Silva, “A hera que era ... trepadeira, desde pequenina”, encerra em si uma doçura quase infantil, mas também uma verdade biológica e metafórica profunda.

Ao personificar a planta, o fotógrafo convida-nos a olhar para a hera não como um invasor, mas como um ser que cumpre o seu destino.

.

A hera não escolhe subir; ela é a própria ascensão.

Desde que brota, a sua natureza impele-a a procurar apoio, a abraçar o que é sólido para alcançar a luz.

Nesta fotografia, a rocha de granito — estática e eterna — oferece o palco perfeito para essa coreografia lenta e persistente.

.

O Contraste entre o Mineral e o Vegetal

Visualmente, a obra vive do contraste.

O granito representa o tempo geológico, frio e imutável.

A hera, por sua vez, representa o tempo biológico, o ciclo do crescimento e a adaptação.

O facto de ser uma hera variegada, com as suas margens claras, confere uma luminosidade extra à composição, como se a planta estivesse a iluminar a própria pedra.

.

A frase "desde pequenina" remete para a ideia de vocação.

Tal como os seres humanos nascem com inclinações e talentos, esta hera nasceu com a "vontade" de trepar.

Onde outros veriam apenas uma pedra no caminho, a hera viu uma oportunidade de elevação.

.

A Persistência como Arte

Mário Silva capta o momento em que a planta já conquistou o seu espaço.

Há uma harmonia na forma como as folhas se moldam às irregularidades do granito.

A fotografia torna-se, assim, uma lição sobre a resiliência: a vida encontra sempre uma forma de florescer, mesmo sobre a rocha mais dura, desde que se mantenha fiel à sua essência "trepadeira".

.

Esta imagem é um tributo à paciência da natureza.

Lembra-nos que, independentemente da nossa escala, todos temos um impulso intrínseco — uma "raiz" que nos orienta para onde devemos crescer.

.

Texto & Fotografia: ©MárioSilva

.

.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Picanço-barreteiro (Lanius senator) - a ave migrante empaladora - Mário Silva

   Picanço-barreteiro (Lanius senator) a ave migrante empaladora Mário Silva O Pequeno Carrasco de Barrete Ruivo A viagem fora longa e exten...