O Mistério de Águas Frias:
A Lenda da Fraga Fatiada
(estória)
Mário Silva
Nas terras místicas do concelho
de Chaves, mais precisamente na aldeia de Águas Frias, ergue-se um monumento
natural que desafia a lógica dos homens e a paciência da ciência.
Imortalizada na fotografia de
Mário Silva, a imponente "Fraga Fatiada" repousa sob o sol
transmontano, exibindo fendas horizontais tão profundas e precisas que parecem
obra de uma lâmina titânica, e não do mero capricho da erosão.
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Mas o que os geólogos explicam
com ventos milenares e fraturas térmicas, os antigos da aldeia sussurram em
noites de lareira como uma herança de pura magia.
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O Despertar do Titã de Pedra
Conta a lenda que, muito antes de
as legiões romanas pisarem os vales do Tâmega, habitava nas montanhas do
Brunheiro uma criatura colossal — um Titã de Pedra, moldado a partir da própria
crosta terrestre, cujo coração batia ao ritmo dos sismos.
O Titã era o guardião dos lençóis
freáticos que hoje alimentam as famosas águas quentes da região.
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No entanto, um espírito das
trevas corrompeu a mente do gigante, levando-o a exigir tributos insaciáveis de
água e colheitas às gentes de Águas Frias.
A terra começou a secar, o mato
definhou e a fome instalou-se no vale.
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O Cavaleiro do Vento e a Lâmina
Estelar
O desespero do povo chegou aos
céus, atraindo a atenção de um guerreiro mitológico, conhecido apenas como o
Cavaleiro do Vento.
Diz-se que ele desceu das nuvens
montado num corcel de bruma, empunhando uma espada forjada no núcleo de uma
estrela cadente.
O gume da sua arma não era feito
de ferro, mas de luz cristalizada, tão afiado que conseguia dividir o próprio
ar.
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O confronto épico deu-se num
final de tarde, com o sol a tingir a paisagem de tons ocre e dourados — a mesma
luz morna que a fotografia agora eterniza.
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Acossado pela destreza do
guerreiro, o Titã recuou e fundiu-se com a maior e mais robusta fraga de
granito do vale, usando-a como um escudo impenetrável.
Escondido no interior da rocha, o
gigante riu-se, fazendo a terra tremer, certo de que nenhuma força humana ou
divina conseguiria perfurar milhares de toneladas de pedra sólida.
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O Golpe Rasante
Mas o Cavaleiro do Vento não
recuou.
Fechou os olhos, escutou o pulsar
do coração do Titã através da rocha e, num movimento horizontal de poder
incalculável, desferiu um único golpe rasante.
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O clarão cegou o horizonte.
A lâmina de luz atravessou o
granito maciço como se este fosse feito de manteiga morna.
A força do impacto não só
aniquilou o gigante de pedra que se escondia no seu interior, como fatiou a
rocha de lado a lado em camadas perfeitas, deixando as cicatrizes imponentes
que hoje dominam a paisagem.
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A Árvore Vigia
Como prova do milagre e para
selar a magia daquele local para todo o sempre, a espada mágica, ao atravessar
a pedra, deixou para trás uma centelha de vida pura.
Dessa centelha, na fenda superior
da rocha fatiada, brotou uma semente.
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É essa mesma árvore heroica e
teimosa que, desafiando a aridez da pedra, cresce no topo da fraga.
Com as raízes cravadas no
granito, ela funciona como a eterna guardiã daquele selo mágico, vigiando os
campos e garantindo que o espírito do Titã nunca mais desperte.
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Hoje, quem contempla a fotografia
e observa a vegetação verdejante a abraçar a base desta pedra monumental, não
consegue deixar de sentir o chamamento do mito.
A Fraga Fatiada permanece
silenciosa, com o seu formato inexplicável, lembrando-nos de que, nas terras
profundas de Trás-os-Montes, a realidade e a lenda partilham exatamente a mesma
raiz.
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Estória & Fotografia: ©MárioSilva
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